Presidente do Palmeiras admite responsabilidade pelo rebaixamento

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Publicado quarta-feira, 23 de abril de 2003 as 09:52, por: cdb

A quatro dias da estréia do Palmeiras na Série B do Campeonato Brasileiro, o presidente do clube, Mustafá Contursi, parece ter acusado o golpe. Em entrevista exclusiva ao Jornal da Tarde, Contursi se diz envergonhado com a situação do clube, assume a responsabilidade pelo fracasso da campanha que levou o time ao rebaixamento em 2002 e admite estar sendo ameaçado por torcedores. “Infelizmente falhei no ano passado”.

A pressão por que hoje passa o presidente que comandou o Palestra Itália por 10 anos se demonstra quando Contursi, que sempre gostou de parecer um homem frio e cerebral, declara que “Ninguém imagina como estão terríveis as minhas noites até hoje. Sofro muito. Tenho a devida noção de que sou o presidente do rebaixamento. Sou o responsável pela vergonha que é o Palmeiras estar na Segunda Divisão.”

Jornal da Tarde – O senhor não sente vergonha vendo os grandes times de São Paulo disputando a Série A e o Palmeiras rebaixado?

Mustafá – Me magoa. Tudo é muito triste. Infelizmente falhei no ano passado. O Vanderlei Luxemburgo montou o time que queria e foi embora mal começou o Brasileiro. Passou o Arce para o meio-de-campo, me pediu para dispensar o Magrão e o Claudecir. Mandou promover oito juniores. Depois, foi embora para o Cruzeiro. Contratei o Murtosa, que foi logo dispensando os juniores e montando uma equipe completamente diferente da do Vanderlei. Não deu certo e veio o Levir e mudou tudo. O erro foi meu, porque dei liberdade demais aos treinadores. Por delegar poderes, fomos rebaixados.

JT – Como delegar poderes, se o senhor não deixava nem o seu diretor de futebol, Sebastião Lapola, dar entrevistas…

Mustafá – Agora eu posso confessar. Sentia que a equipe estava pressionada e eu queria deixá-la afastada da pressão da imprensa. Quanto menos os meus diretores falassem, seria melhor. Mas o problema foi que o time não reagiu.

JT – Quando o senhor teve a certeza do rebaixamento?

Mustafá – Quando não vencemos o Flamengo no Parque Antártica. Aí vi que tudo estava perdido e não havia o que fazer. Deixei para o Levir e os jogadores reagirem, só que não conseguiram. Foi duro demais para mim. Fiz tudo o que deveria fazer como presidente.

JT – Há algum outro motivo que colaborasse com a queda?

Mustafá – Há sim: o medo do Parque Antártica. Chegamos a ficar 38 partidas sem perder em nosso estádio. Mas depois pessoas conseguiram desestabilizar o time. É uma coisa estudada, feita com intenções de pressionar a equipe. Essas pessoas, que não considero nem opositores a mim e sim ao Palmeiras, espalham em pontos estratégicos gente só para vaiar e instigar a torcida. Isso é uma sujeira contra o time e não irá se repetir neste ano porque vou proteger a equipe (conselheiros ligados a Mustafá garantem que será triplicado o número de seguranças que acompanharão esses torcedores, com poder até para tirá-los do estádio).

JT – O Palmeiras não terá um grande prejuízo por disputar a Segunda Divisão?

Mustafá – Não. Por um acordo com o Clube dos 13 temos direito a 50% da cota que os times mais tradicionais recebem. Exigiremos os outros 50% da televisão, que simplesmente quer transmitir todas as nossas partidas. Se vão mostrar mais vão pagar mais ao Palmeiras e ponto final. Disso eu não abro mão.

JT – O senhor não esperava ajuda da CBF em uma ‘virada de mesa’ graças a sua influência e amizade com Ricardo Teixeira, presidente da entidade?

Mustafá – Não. Só posso dizer que tem um significado muito grande o Palmeiras na Segunda Divisão, quando já houve várias ‘viradas de mesa’ para que outros clubes fossem preservados. Sinto que a dignidade do Palmeiras será importante para o futuro do futebol brasileiro.

JT – O exemplo será dado, mas o senhor realmente acredita no time que montou para subir? O elenco é muito fraco…

Mustafá – Essa é a sua opinião. Sei que o time do ano passado era melhor, com Arce, Dodô, Lopes, Itamar, Leonardo.