Prêmio Nobel traz fama, fortuna e frustração a escritores

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Publicado terça-feira, 5 de outubro de 2004 as 14:54, por: cdb

Ganhar o Prêmio Nobel transforma escritores em ícones e leva sua obra para muito além dos limites de suas próprias culturas, mas cobra um preço de pessoas frequentemente reclusas, cujo trabalho exige a solidão: as coloca sob os holofotes da mídia.

Na quinta-feira, um escritor ou escritora de alguma parte do mundo, que pode ou ser desconhecido em quase todo o planeta ou pode ser um nome que está em todas as bocas, vai receber um telefonema da Academia Sueca, que, desde 1901, confere o prêmio mais importante do mundo das letras. A partir desse momento, o telefone do escolhido não vai parar de tocar.

O laureado de 2000, o chinês Gao Xingjian, disse que as entrevistas à imprensa o deixaram sem tempo para escrever. O emigrado polonês Isaac Bashevis Singer, premiado em 1978, foi obrigado a deixar sua casa e tirar seu telefone da lista.

Existem compensações, é claro. O dinheiro do prêmio, 10 mil coroas suecas (US$ 1,36 milhão), pode pagar por muitas fitas de máquina de escrever, e o fato de os livros do laureado serem traduzidos em muitas línguas pode representar um salto em sua renda.

– De repente passei a ter um número enorme de leitores. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer comigo- comentou Gao.

Alguns laureados se retraem, tímidos, diante dos holofotes, como fez o sul-africano J.M. Coetzee em 2003. Outros adoram a atenção recebida. O poeta irlandês Seamus Heaney disse que seu prêmio, recebido em 1995, lhe possibilitou “uma despreocupação que eu desejava havia muito tempo”.

Dois escritores rejeitaram o Prêmio Nobel: Boris Pasternak, autor de Doutor Jivago, o recusou em 1958, alegando que tinha sido escolhido por razões mais políticas do que literárias, e o francês Jean-Paul Sartre rejeitou o prêmio seis anos mais tarde.

O que acontece com mais frequência é que o prêmio fundado pelo inventor da dinamite é usado como plataforma para a paz num mundo que o romancista americano William Faulkner, em seu discurso de aceitação do Nobel de 1949, disse ser repleto de “um medo físico generalizado e universal”.

– A missão da arte, da poesia, não é fazer a paz. Arte é paz – disse Seamus Heaney em seu discurso de aceitação do prêmio, em Estocolmo.

A Academia guarda sigilo total em torno de suas deliberações, de modo que os palpites em torno do possível vencedor se baseiam em dados sobre os ganhadores recentes — se foram romancistas, poetas ou dramaturgos e qual era seu sexo, língua e raça.

Fredrik Lind, da livraria Hedengren, em Estocolmo, é conhecido por saber prever de que autor deve estocar as obras. Seu palpite quanto ao vencedor deste ano é o poeta sírio-libanês Ali Ahmed Said, conhecido como Adonis.

– A poesia árabe é uma tradição que nunca recebeu o prêmio, e Adonis é o maior poeta árabe vivo – disse Lind.

Adonis virou favorito para o Nobel contra o pano de fundo da violência no Iraque e no Oriente Médio. Nenhum poeta recebe o prêmio desde 1996. Nos últimos sete anos, os vencedores foram romancistas.

Mas Josyane Savigneau, editora literária do Le Monde, disse que um escritor da neutra Suécia “seria perfeito num ano tão problemático quanto este” e que o poeta Tomas Transtromer poderia ser o primeiro vencedor sueco em 30 anos.

Seu candidato favorito é o romancista americano Philip Roth — “uma escolha improvável, já que ele não é politicamente correto. O Nobel é um prêmio muito político”.

Isso pode significar a exclusão do outro palpite de Lind, o peruano Mário Vargas Llosa, que aderiu à política conservadora.

Mas Ian Jack, editor da revista Granta, afirma que os prêmios dados em 2001 ao escritor V.S. Naipaul, nascido em Trinidad-Tobago, e no ano passado a Coetzee “jogam por terra a idéia de que o Nobel só seja dado a liberais de carteirinha” ou que tenha um viés contra escritores cuja língua não é a inglesa.

Mesmo assim, o fato de ser amplamente traduzido ajuda. Savigneau acha que o português José Saramago recebeu o Nobel em 1998 em detrimento de seu conterrâneo “muito mais