Por que o Tupi?

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 4 de agosto de 2001 as 00:01, por: cdb

Há tempos me perguntam porque não aprendi inglês e a resposta pode ser absurda para muitos, mas a verdade é que eu gosto mesmo é do Tupi. Até o ensino médio, eu era uma garota normal – aprendi a língua inglesa, um pouco além do “the book is on the table” – coisas que nem gosto de recordar. Depois, virei Policarpo Quaresma, aquele insano personagem de Lima Barreto que aspirava trocar a língua portuguesa pelo Tupi e acabou com um “Triste Fim”. Livro de cabeceira, Policarpo realmente é um ícone.

Adianto que não estou sozinha na divulgação da importância da língua, mas em ótima companhia. Eduardo Navarro, da Universidade de São Paulo, fundou recentemente uma ONG ” organização não-governamental – chamada Tupi Aqui, com o intuito de ensinar e promover discussões sobre o aproveitamento da língua, além de indicá-la como matéria optativa, em escolas paulistas.

No Rio de Janeiro, Joubert di Mauro ensina Tupi a distância, via internet – e de graça! É só fazer a inscrição no site www.painet.com.br/joubert e receber as aulas por e-mail. Lá, podemos encontrar curiosidades tão malucas que o próprio Policarpo Quaresma aprovaria, como o Hino Nacional Brasileiro em Tupi.

Eu até fiz matrícula no curso do Joubert, mas já havia visto alguma coisa em uma viagem que fiz em 1995, para o Pará, com o intuito de aprender o nheengatu (língua boa, em Tupi), por conta própria.

Nunca imaginei que hoje seria jornalista do Makira – rede em nheengatu – por causa disso. Na comemoração dos 500 anos do Descobrimento, o portal procurava alguém que soubesse expressões brasileiras para homenagear o país. E nada mais brasileiro do que o Tupi, que, nos idos de 1500, até foi chamada de língua geral, por se assemelhar aos vários dialetos indígenas falados na costa litorânea, e entendido por todo o povo que habitava o país.

Saber alguma coisinha da língua não requer nenhuma habilidade: é necessário para entender o nosso português do Brasil, repleto de palavras indígenas. E pensar que podíamos ser bilíngües como os paraguaios que falam o guarani…

Em 1757, o uso da língua foi proibido por uma Provisão Real. E em 1759, teve morte decretada, com a expulsão dos jesuítas do Brasil. O Tupi tinha ido longe demais: estava sendo mais falado que o português.

Muitas palavras já tinham se incorporado à língua e ninguém pôde fazer nada. Até hoje, ananás é abacaxi e ponto final. Não se discute! O Tupi também cedeu palavras para nomes geográficos, como Pernambuco e Paraty, entre outros.

Em 1922, a célebre frase “Tupi or not Tupi” de Oswald de Andrade, parafraseando Shakespere, impulsionou o movimento modernista, tão nacional. Hoje, a língua chegou ao mundo virtual. Além do curso do Joubert, existem muitos dicionários de tupi na rede. Centenas de sites estão registrados com domínio na língua brasileira. Para fazer um teste, fiquei uma hora procurando nomes em tupi e encontrei uma enorme variedade de sites: makira, akatu, curumim, mirim, açu, ipiranga, juba, tinga, mani, tukano etc. Fica claro que, apesar da língua Tupi estar em desuso e ser antiga, está bem viva nos dias atuais.

Para mostrar como ainda somos tupiniquins, deixo aqui uma lista básica para reflexão.

Abacaxi – fruta cheirosa
Anhangabaú – rio das diabruras
Arapuca – armadilha para aves
Araraquara – refúgio das araras
Bangú – barreira escura
Bauru – cesto de frutas
Capim – planta de folha miúda
Caraguatatuba – sítio dos gravatás
Carijó – procedente do branco
Carioca – mestiço
Cumarí – o que excita a língua (pimenta)
Goiás – gente da mesma raça, nome de uma nação indígena
Guarulhos (guarú) – nome de uma tribo de gente barriguda
Guaratinguetá – pássaro branco
Guri – menino
Içá – formiga grande
Ipanema – água ruim, lagoa que não dá peixe
Ipiranga – rio vermelho
Jabuticaba – comida dos jabutis
Jacaré – sinuoso, torto
Jaguar – devorador; onça
Jururu – triste
Maloca – casa feita para a guerra
Mingau – papa rala (de mandioca)
Mirim – pequeno