Por baixo e longe demais

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Publicado domingo, 19 de agosto de 2001 as 21:16, por: cdb

Um dramático (!) impasse foi criado em certos círculos restritos imediatamente após a morte de Jorge Amado, dando oportunidade a que os jornalões ampliassem o arco de interesse sobre esses mesmos círculos ao reproduzir idéias e intenções dignas da era tristemente medíocre que vive o país de FHC. O impasse: das quarenta cadeiras da Academia Brasileira de Letras, quem ocupará a de número 23 no lugar do celebrado autor baiano?
Como sempre, a cada morte anunciada de um imortal, os mais afoitos dos 39 remanescentes passam a se movimentar em torno de candidatos à vaga, geralmente com o defunto ainda quente. No caso de Jorge Amado, parece ter havido certa condescendência, ele morreu numa segunda-feira, as articulações em busca de um novo nome foram publicadas na quinta. Surgiram três nomes: Jô Soares, Paulo Coelho e Zélia Gattai, a viúva do finado.
O humorista/entrevistador da Rede Globo saiu falando que, ao saber da candidatura de Paulo Coelho, decidiu pleitear a vaga também, como quem diz “se é para baixar o nível, estou nessa”, e já foi pedindo publicamente o voto de uma imortal que levou ao seu programa de televisão, Nélida Piñon. O outro se apressou em declarar que fora “dormir candidato” no dia seguinte à morte do escritor baiano, mas desistiu logo de manhã porque teve “um sinal”, supõe-se do além, e deixava para se candidatar dali a quatro anos. A viúva, no curto meio tempo entre o velório, a cremação e as homenagens, recebeu de um daqueles mais afoitos dos 39 imortais remanescentes um telefonema estimulando-a a aceitar a candidatura, enquanto outro deles alardeava que ela já podia contar com 25 dos 39 votos.
Machado de Assis ia revirar na cova diante de tais candidatos, se bem que já teve oportunidades semelhantes – afinal, há cadeiras ocupadas por Roberto Campos (talvez devesse estar na academia de letras de câmbio), Ivo Pitanguy (última obra: “Atlas de Cirurgia Palpebral”) e Roberto Marinho (um livro: “Uma Trajetória Liberal”).
Mas agora parece que nivelaram por baixo de vez e foram longe demais. Se é para esquecer a literatura e eleger quem pontifica na mídia grande, entregue-se logo o fardão para o Gugu, o Ratinho ou a Hebe Camargo, é ou não é?

Sérgio de Souza é jornalista