Política externa é marco divisório

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Publicado domingo, 7 de dezembro de 2003 as 23:13, por: cdb

Para quem achava que direita e esquerda tinham acabado, este ano foi um “revival” amargo. A política externa brasileira recolocou um tema historicamente central para a esquerda, aquele que vincula o destino de cada país à sua inserção internacional. Especialmente na periferia do capitalismo, que foi incorporada ao sistema a partir da colonização, para ter um papel complementar do desenvolvimento das economias centrais, o tema percorre todas as etapas da história de nossos países e reaparece, na época da globalização neoliberal, com força renovada.

Em três planos se recolocou o caráter estratégico da inserção internacional de um país como o Brasil: o da prioridade entre a Alca ou o Mercosul; o da constituição em Cancun do Grupo dos 20 contra a hegemonia dos países centrais nas regras do comércio mundial; o da posição de cada país em relação à guerra do Iraque e seus desdobramentos. Para saber onde está a direita, basta tocar em questões que afetam – ou poderiam afetar, segundo a hipersensibilidade desta em relação que tenha que ver com os EUA – os interesses norte-americanos. Podemos fazer quase tudo, menos contrariar os vizinhos do Norte. Aí se desatam os editoriais dos vetustos jornais conservadores e capas de desmoralizadas revistas de variedade ou das que representam os interesses das grandes corporações, as bem azeitadas e remuneradas penas de colunistas econômicos, as soturnas vozes de ministros da área econômica, para recordar que se estaria colocando o país em trilha perigosa.

Não poderíamos deixar de lado o mercado norte-americano, que, segundo os que defendem que o atual modelo exportador – cujo vigor não dá para que se cresça mais do que 0,2% este ano -, deve ser perpetuado, condenando-nos assim à Alca e às condições que nos forem impostas pelo governo norte-americano. Da mesma forma, rebelar-se contra a OMC seria fazer com que o comércio mundial ficasse sem regras e fosse povoado por acordos bilaterais em que os mais fortes imporiam suas regras. Manifestar oposição à guerra do Iraque e à ocupação militar desse país seria uma opinião incômoda para quem acredita que a negociação com os organismos internacionais em que Washington tem hegemonia e com o próprio governo dos EUA é a prioridade das prioridades.

Em suma, a direita confirma a existência da esquerda e esta confirma que a inserção internacional de cada país dá o marco não apenas da sua soberania, mas dos modelos de sociedade e de Estado que se pretende. O México é o modelo da subordinação acelerada. O Brasil pode apontar para um modelo de soberania, que só pode ser garantida com uma correlação de forças internacional favorável, em que o Mercosul, o Grupo dos 20 e as posições do governo brasileiro sobre os temas de política internacional – como as que Lula reitera na sua viagem ao Oriente Médio – são elementos estratégicos.
Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História” (Boitempo Editorial) e “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo).