Polícia do Rio investiga quadrilhas de PMs envolvidos com tráfico

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Publicado sábado, 30 de novembro de 2002 as 00:37, por: cdb

A polícia do Rio investiga a existência de outras quadrilhas de policiais militares envolvidas com o tráfico de drogas na região metropolitana do Rio, como a desbaratada ontem em Niterói (cidade a 14 km do Rio).

As quadrilhas recebem propina de traficantes e vendem para eles drogas e armas apreendidas durante operações em favelas.

O secretário de Segurança Pública, Roberto Aguiar, disse hoje que, nos últimos sete meses, policiais civis e militares foram presos sob a acusação de envolvimento com traficantes. Ele não revelou o total de prisões.

“Isso é uma coisa tão comum. Esse caso [de Niterói] foi notícia pela quantidade [de PMs presos]”, afirmou Aguiar.

Ao grampear, com autorização da Justiça, o telefone celular do chefe do tráfico da favela Vila Ipiranga (Niterói), policiais civis da 78ª DP (Delegacia de Polícia) descobriram que PMs do 12º Batalhão negociavam a venda de armas e drogas apreendidas em operações.

O delegado Anestor Magalhães pediu a prisão temporária de 19 PMs e 12 traficantes. Hoje mais um PM foi identificado. O delegado anunciou que vai pedir à Justiça sua prisão temporária. Segundo Magalhães, o PM é conhecido como Russo. O nome dele não foi revelado.

O soldado Gilmar Honório de Lima é considerado foragido por não ter se apresentado à polícia até as 18h30. Um outro PM, identificado como Caveira, também está foragido.

Apenas uma acusada de ser traficante foi presa até agora. Soraya Machado Peçanha, 18, é apontada pela polícia como responsável por levar o dinheiro da propina aos PMs. Em depoimento à polícia, ela apontou seis PMs.

Magalhães disse que pedirá a liberdade de dois PMs, um sargento e um soldado, que “não fazem parte da quadrilha”.

Peçanha também prestou depoimento na Corregedoria Geral das Polícias Unificada. Segundo o corregedor Aldney Peixoto, ela disse que conhece os traficantes porque seu pai mora na Vila Ipiranga. Grávida de dois meses, ela disse ter sido namorada de Anderson Oliveira, o Negão, chefe do tráfico na favela.

Peixoto disse que ela afirmou que mais de um PM usava o mesmo codinome. “Eram policiais militares que, segundo a presa, diziam fazer parte de diferentes ‘bondes’. Por exemplo, o ‘bonde’ do Ciborg, o do Bruxo, o do Fantasma”, afirmou.

De acordo com o corregedor, Peçanha está se sentindo ameaçada e tem medo da vingança de PMs. Ela está presa na carceragem da 72ª DP (Delegacia de Polícia).

O corregedor disse não ter se surpreendido com a prisão dos policiais do 12º BPM. No último dia 15, ele esteve no batalhão para uma vistoria e viu no estacionamento uma moto cuja placa estava com as letras raspadas.

“O soldado, dono da moto, disse que tinha sido a filha, que estava limpando a placa e acabou apagando as letras. Este soldado é um dos presos ontem”, afirmou Peixoto.

Segundo o corregedor, alguns soldados presos vieram transferidos do 14º BPM, onde, no ano passado, cerca de 500 PMS foram transferidos sob a acusação de proteger o traficante Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém, e de trabalhar para bicheiros.

A investigação da 78ª DP durou três meses e gerou a gravação de 22 fitas, com mais de 20 horas de conversas. O comandante do batalhão, coronel Marcílio Faria da Costa, ajudou a identificar os PMs.