Pobreza pode elevar tensão social na América Latina

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Publicado terça-feira, 16 de abril de 2002 as 16:58, por: cdb

A América Latina é a região com maiores desigualdades sociais e econômicas do mundo, com 50% da população enquadradas na categoria “pobres”. Quanto mais os governos e as elites privadas ignorarem o problema, maior o risco de protestos nas ruas. A avaliação é do argentino Bernardo Kliksberg, assessor das Nações Unidas para programas de combate à pobreza.

Ele descarta, entretanto, a eclosão de uma convulsão social generalizada na região, tendo como inspiração os panelaços que tomaram conta da Argentina no fim do ano passado e os protestos violentos contra e a favor do presidente Hugo Chávez nas ruas de Caracas, Venezuela, no fim da semana passada. “É possível acabar com esse risco, porque todos os setores já estão convencidos de que a questão da pobreza terá de ser enfrentada logo, com políticas públicas adequadas e maior mobilização da sociedade civil”, disse o especialista, durante debate sobre pobreza em São Paulo.

Os dados divulgados por Kliksberg revelam, por exemplo, que o nível de desemprego juvenil, uma das maiores causas da criminalidade, está em 20% na média da região, um número considerado muito alto para qualquer padrão econômico. Como resultado, a criminalidade cresceu 40% na última década, perdendo apenas para os países da África sub-sahariana.

Na área da educação, o maior preventivo contra o crime, 50% das crianças que chegam a ingressar em escolas públicas não terminam o curso primário. O nível de repetência é alto e, na média, os latino-americanos levam entre oito e dez anos para cursar o que, nos países industrializados, se faz em seis anos. Ele ressaltou, ainda, que 30% da população não têm água potável e 23 mil mulheres grávidas ou mães de recém-nascidos morrem ao ano por falta de acesso à saúde, contra 5 mil nos países mais desenvolvidos. “A pobreza na América Latina é alarmante”, destacou.

Corrupção
Kliksberg acredita que a consolidação da democracia na região permite, cada vez mais, que as classes menos favorecidas protestem contra suas condições de vida, gerando uma mobilização que pressiona a classe dirigente a tomar medidas de combate à pobreza. “Não basta apenas votar. As pessoas precisam se organizar para fazer valer seus direitos”, afirmou. Ele disse, ainda, que vários setores da região perderam a capacidade de indignação contra a pobreza, o que torna ainda mais difícil combatê-la.

As medidas que ele sugere para combater a pobreza na América Latina são: democratização da educação e do acesso à informatização, acesso a serviços adequados de saúde e mobilização do que a ONU denomina “capital social”, ou seja, aumento da confiança entre as pessoas, capacidade de as pessoas se associarem umas com as outras, consciência cívica e predomínio de valores éticos.

“Quanto mais capital social um país tem, mais desenvolvimento sustentado ele gera. E a corrupção só acaba quando a cultura do povo muda”, afirmou. Kliksberg defende um maior controle da gestão pública pela sociedade civil, uma democracia mais transparente e descentralizada em toda a região e uma sociedade mais participativa.