Petróleo a US$ 50: as razões escondidas

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 30 de setembro de 2004 as 13:02, por: cdb

O petróleo chega a 50 dólares por barril. E pode subir muito mais. Alegam-se muitas razões. Não por acaso o mapa da instabilidade política no mundo coincide em grande parte com os países produtores de petróleo que ao mesmo tempo coincidem com alvos fundamentais da “guerra infinita” dos EUA.

O consumo mundial é o dobro do que foi há seis anos. Mas não se costuma mencionar uma razão central para a demanda crescente do petróleo: o direito inalienável dos estadunidenses de ir e vir com os veículos que gastam petróleo de forma infinita. Apesar das campanhas para que eles usem menos petróleo e, assim, fiquem menos dependentes dos países árabes, o consumo médio de gasolina das famílias estadunidenses este ano será de 2.700 dólares. Esse gasto dobrou em dois anos.

Bush propõe estender a exploração de petróleo nas reservas do Alasca, não lhe importando a devastação ecológica que produzirá. Isso porque há 30 anos os EUA importavam um terço do seu consumo e hoje importam dois terços, com reservas para menos de dez anos.
Enquanto isso, os estadunidenses nem se tocam com o problema da dependência de países cuja população os odeia. Confiam na força militar para manter a dominação, ainda que pelo terror sistemático, dos países produtores de petróleo. Os EUA são o grande vilão no aumento da demanda mundial de petróleo, e não pelo crescimento da sua economia.

A elevação do consumo estadunidense nas duas últimas décadas se deve essencialmente pelo uso cada vez menos eficiente de gasolina. Isto porque eles não renunciam ao “direito inalienável” de comprar utilitários – a grande febre de consumo no mercado automobilístico. Eles eram 5% da frota automobilística estadunidense, e hoje passam da metade, chegando a 55%.

Essa é a razão não mencionada do aumento desproporcional do consumo de gasolina por parte dos estadunidenses, que alegam seu direito inalienável de ir e vir no carro que desejem. A destruição ambiental, a opressão sobre os povos árabes, a deterioração do trânsito urbano – tudo o mais, contanto que possam comprar e usar os utilitários na hora que bem entendam, para ir onde bem entendam.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História”.