Pepe Mujica chega ao Brasil para rever velho amigo e assinar tratados

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Publicado segunda-feira, 29 de março de 2010 as 12:53, por: cdb
Atualizado em 18/09/10 19:38

Ex-guerrilheiro do Movimento de Libertação Nacional Tupamaro que lutou contra a ditadura, o presidente do Uruguai, José Pepe Mujica, de 75 anos, assumiu o governo no último 1º. Segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Mujica representa a personalização de uma liderança revolucionária e da fé na democracia. Mujica tem afinidades políticas e ideológicas com Lula, além de admiração mútua.

A interlocutores, Lula costuma dizer que o uruguaio é o símbolo da renovação política e exemplo  para a América Latina.  Na sua biografia, Mujica tem 14 anos de prisão por ter participado de sequestros e assaltos em defesa da democracia. Apesar de pouco tempo no governo, é uma das figuras mais populares no Uruguai. Pelo menos uma vez por semana ele reúne seus assessores diretos para almoçar em um bar simples, sem segurança especial nem cuidados extras, na área antiga de Montevidéu, capital uruguaia.

Na política e economia externas, Mujica e Lula têm posições semelhantes. O uruguaio é favorável ao fortalecimento dos blocos como o Mercosul, a União das Nações Sul- Americanas (Unasul), e a recém criada  Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos – que exclui os Estados e o Canadá.

Como Lula, Mujica condenou a deposição do ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya. O hondurenho foi deposto por um golpe de Estado em 28 de junho de 2009. A ação foi organizada por um movimento integrado pelas Forças Armadas, a Suprema Corte e membros do Congresso Nacional. Em janeiro, assumiu o novo presidente do país, Porfirio Pepe Lobo.

Porém, há também divergências entre o Brasil e o Uruguai. Os uruguaios reclamam da falta de apoio do Brasil e do Mercosul em busca de uma solução para a chamada “crise das papeleiras”. É o impasse que envolve fábricas de celulose por causa da construção de duas usinas na fronteira entre o Uruguai e a Argentina. Os termos do acordo ainda não têm definição. O assunto está na Corte Internacional de Justiça.

Internamente, Mujica demonstra que vai manter firme as metas que definiu. Ele quer fazer uma espécie de revisão nos processos judiciais referentes às violações dos direitos humanos ocorridas durante a ditadura uruguaia – de 1973 a 1985. A iniciativa deve gerar polêmicas com setores conservadores e militares que resistem à medida. O novo presidente já avisou também que é favorável à libertação dos militares com mais de 70 anos, que estão presos.

Nas eleições uruguaias, Mujica venceu com 53% dos votos contra 42% do seu adversário, o ex-presidente Luis Lacalle. Com um discurso de conciliação, o presidente realiza reuniões desde a sua eleição em busca de acordos políticos para garantir a governabilidade.

Amigos de longa data

Amigos há pelo menos 30 anos, os presidentes Lula e Pepe Mujica, se reencontraram nesta segunda-feira. Em pauta, acordos bilaterais, política e economia externa. Um dos acordos é a criação de uma comissão de integração do setor produtivo para facilitar o comércio bilateral, reduzindo a burocracia e o tempo, os outros se referem às obras de interconexão energética e construção de pontes e hidrovias.

Há apenas 28 dias no cargo, Mujica já estabeleceu um estilo próprio: não abandonou a simplicidade e a garra que caracterizam o guerrilheiro que combateu a ditadura no Uruguai. Para a viagem ao Brasil, o uruguaio escolheu voo comercial. De Brasília ele segue para Caracas, na Venezuela, também em avião de carreira – nada de aeronave presidencial.

Lula e Mujica vão tratar também de temas internacionais, como a reconstrução do Haiti e a situação do governo do presidente de Honduras, Porfirio Pepe Lobo – isolado desde o golpe de Estado no país em junho de 2009. O Mercosul é outro assunto que consta da pauta.

Mujica quer ampliar o comércio com o Brasil, que é atualmente de US$ 2,6 bilhões. A proposta já examinada por ele e Lula é definir a permanência de uma comissão de integração do setor produtivo para dar mais agilidade nas negociações comerciais, reduzindo processos operacionais e permitindo que eventuais acordos ocorram mais rapidamente.

O Uruguai esporta para o Brasil carne bovina, cereais, semente, leite, madeira e carvão, e compra do país combustíveis e óleos, máquinas, veículos, tratores e caldeiras.

Também está em pauta a interconexão energética elétrica de uma linha de transmissão de 500 megawatts. Mujica e Lula devem fechar também a parceria para a construção da segunda ponte sobre o rio Jaguarão – que é 32 quilômetros navegáveis e divide as cidades de Jaguarão (no Rio Grande do Sul) e Rio Branco (no Uruguai). No local há apenas uma ponte que não é suficiente para atender às necessidades da região.

Os dois presidentes querem definir ainda um acordo para investimentos no incremento na infraestrutura portuária a partir da Lagoa Mirim – a segunda maior lagoa do Brasil –, na fronteira do extremo sul do Brasil com o Uruguai até a Lagoa dos Patos, a maior do país.

Energia elétrica

A complementação de acordos na área de energia elétrica é um dos principais assuntos que traz El Pepe ao Brasil, como também é chamado José Mujica em seu país, e uma comitiva técnica que o acompanha para tratar dos negócios bilaterais.

A energia elétrica foi um dos primeiros temas a ocupar a agenda de Mujica após sua posse no dia 1º de março deste ano. Tanto é assim que já no dia 16 de março a Eletrobrás e a estatal uruguaia Administración Nacional de Usinas y Transmisiones Eléctricas (UTE) assinaram contrato para construção de obras de interligação entre os países, trabalho que avançará até 2012, de acordo com avaliação do ministro uruguaio da Indústria, Roberto Kreimerman.

O projeto envolve a construção de uma subestação de 500/230KV em Candiota (RS); uma linha de transmissão em 500 quilovolts (KV) com 60 quilômetros (km) de extensão até a fronteira com o Uruguai; e outra linha em 230 KV com 9 km, que será conectada à subestação Presidente Médici, da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul (CEEE). A Eletrosul coordenará a implantação da subestação e das linhas de transmissão. A empresa também será a responsável pela operação e manutenção das instalações.

A interconexão elétrica Brasil/Uruguai requer investimentos que serão divididos entre os dois países. O Uruguai captará parte do dinheiro no Fundo para a Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional do Mercosul (Focem), criado exatamente para iniciativas de estímulo econômico entre os países integrantes do bloco econômico regional, composto ainda pela Argentina e pelo Paraguai.

Estima-se que o Uruguai investirá cerca de US$ 120 milhões na primeira etapa das obras e US$ 135 milhões, na segunda. O projeto contará com empréstimos obtidos na Corporação Andina de Fomento e no Citibank, além de recursos próprios da empresa estatal de energia. A Eletrobrás investirá US$ 75 milhões. Em troca, o Uruguai pagará imposto fixo mensal durante 30 anos, como amortização ao investimento da estatal brasileira.

O governo uruguaio considera que esta interconexão elétrica com o Brasil é fundamental para o futuro do desenvolvimento energético do país vizinho. O investimento nas obras Brasil/Uruguai integra o plano de internacionalização da Eletrobrás. A empresa avalia, ainda, empreendimentos de geração de energia elétrica no Peru, na Nicarágua, na Argentina e na Costa Rica, entre outros países.