Pepe Escobar: “Mitt, o empastador de mulheres”

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Publicado terça-feira, 23 de outubro de 2012 as 15:10, por: cdb

É o ciclo de memes que devorou a cidade – e a nação, por falar disso. Ninguém escapa ao ataque de “Pastas cheias de mulheres”: de Tumblr a um tsunami de tuítes, da melhor página de Facebook em eras [1] à encenação em 2 Live Crew e mais, e mais.

Por Pepe Escobar, no Asia Times Online
Pesquisa informal conduzida por esse colunista numa pasta cheia de mulheres da Califórnia, de Malibu a Hollywood via Beverly Hills, revelou absoluto, total, sem alívio, rejeição/incômodo/gargalhadas sobre o mais recente surto, ao vivo, de Mitt, o feminista.

Citando aquele grande geopolitólogo da alma Brian Wilson [2], bom seria se todas fossem garotas da Califórnia. Mas o veredicto ainda não foi lavrado e depende, completamente, de mulheres indecisas nos estados indecisos cruciais do Colorado, Virginia e Ohio.

Para os que ainda não tenham sido informados sobre esse terremoto social equivalente a uma pane na fechadura do closet de roupas de Britney Spears: no debate da segunda-feira, entre candidatos à presidência dos EUA, o candidato Republicano jurou que, como governador de Massachusetts, “Empreendemos esforço concentrado para procurar e encontrar mulheres cujos currículos as qualificassem para serem membros de nosso Gabinete. Procurei vários grupos de mulheres e disse: ‘Vocês podem nos ajudar a ajudar vocês?’ E elas nos mandaram pilhas de pastas cheias de mulheres”.

Muito pior que a nova invenção de Mitt já ter sido desmentida [vide nota 1] – para começo de conversa ele jamais pediu a grupo algum as tais Pastas Cheias de Mulheres – o novo surto feminista de Mitt implica que o novo inventor (macho) de empregos no Novo Sonho Americano de Mitt, de tão desesperado que está, contratará quem lhes apareça pela frente. Até mulheres.

Por sua vez, o presidente Obama falou sobre direito de abortar, atenção à saúde e salários iguais para homens e mulheres. Não é preciso ser cientista da NASA para saber em quem votarão aquelas Pastas Cheias de Mulheres que tenham prestado atenção.

Hubbard, qual é o plano?

Muito mais grave que o ciclo de memes, o problema, mesmo, é a Pasta Cheia de Conversa Fiada de Mitt. OK, a Califórnia é o futuro, para o bem e para o mal – incluída aí a possibilidade de rachar fisicamente, separar-se do continente e navegar pelo oceano dito Pacífico até a Ásia (ou para o fundo do mesmo oceano dito Pacífico).

Mas quem nos EUA, no controle das próprias faculdades mentais, acreditaria no “plano” de Mitt para um Novo Sonho Americano, com menos impostos, os mais ricos ainda mais livres e guerra monetária e comercial contra a China, a começar no “primeiro dia”?

Quero ver o dinheiro

E, por falar nisso, temam muito o mundo segundo Mitt (ou, melhor dizendo, segundo seus conselheiros neoconservadores). A Rússia é inimigo estratégico. A China é inimigo comercial. E os EUA farão o inferno – outra vez – em todo o Oriente Médio: esperem, pois, o Despertar dos Mortos (versão medieval), tipo “ou você está conosco, ou está contra nós”, parte 2.

De volta à economia, Obama bem que tentou, no debate, forçar Mitt a listar todas as deduções e créditos que ele detonará, se eleito, com seu “plano” de reduzir 20% nos impostos sem reduzir a arrecadação, e com os impostos minimalistas a ser cobrados dos mais ricos. Até os coyotes no deserto de Mojave sabem que os números da conta de Mitt não batem. É como se Mitt, o Empastador, quisesse vender um Dodge surrado de segunda mão, mas só revelasse o real estado do veículo depois de fechar o negócio e ver a cor da grana.

Em vez de concorrência comercial com a China, Mitt quer guerra comercial e monetária. De 2002 a 2011, os EUA criaram reles 48 mil novos empregos para arquitetos e engenheiros. E, mais, Mitt simplesmente se recusa a admitir que a raiz de todo o mal está em as grandes corporações norte-americanas estarem “exportando” empregos americanos, para fora do país, no atacado. Obama, pelo menos, admitiu que “alguns” desses empregos jamais retornarão (de fato, nenhum retornará). Aliás, uma linha-de-dançar-a-conga inteira de economistas dos dois partidos – pensamento desejante ou, em alguns casos, só delírio desejante – anda dizendo que até 2016 os EUA criarão 12 milhões de empregos, não importa quem esteja morando na Pennsylvania Avenue.

Em vez de explicar sua Pasta Cheia de Mulheres, Mitt bem poderia tentar explicar sua Pasta Cheia de Promessas Econômicas, pedindo a muito necessária ajuda de Glenn Hubbard, decano da Columbia Business School, ex-membro do Conselho de Assessores Econômicos do governo de George Dábliu Dubya e, ao que se sabe, principal conselheiro econômico de Mitt. Fato é que Mitt não sabe dizer coisa alguma de específico sobre seu plano, porque nem Hubbard diz coisa com coisa. [3]

Claro que os objetivos básicos do plano são os de sempre: “Conter a sangria de dívidas e gastos federais, reformando nosso sistema de impostos e desmontando todas as regulações”.

Hubbard não sabe explicar como o “plano” de Mitt conseguiria reduzir os gastos federais até, no máximo, 20% do PIB (portanto, Mitt também não sabe explicar). Hubbard enfatiza o corte dos impostos sobre os ganhos das corporações e uma vaga “ampliação” da base de arrecadação, de modo que “a reforma tributária é neutra para a arrecadação”. Nada objetivo ou específico. Mitt, então, também é vago e inespecífico.

O fim dos “impedimentos regulatórios à produção de energia e à inovação” significa a volta da velha cantoria Republicana de “Perfure, Baby, Perfure”. Hubbard também acredita na miragem dos 12 milhões de novos empregos, plus alguns hiper vagos “milhões a mais, graças ao efeito do plano sobre o crescimento, no longo prazo”.

Assim sendo, se o decano da Columbia Business School, com toda aquela expertise e as boas intenções, é vago, de Mitt, o Empastador, então, nem se fala.

E esse oceano de imprecisão e vagas ideias gerais faz alguma diferença? Faz. Nate Silver, extraordinário mastigador de pesquisas observou que “os candidatos estavam rigorosamente empatados quando o instituto Public Policy Polling perguntou aos eleitores como o debate alterara seu voto: 37% responderam que o debate os inclinou mais a votar em Obama; 36% que (idem) em Romney”.

Quer dizer: a eleição irá assim até a boca da urna – não importa quantas pastas se considerem. Hollywood chamaria de cliffhanger – “suspense de fim de capítulo, para garantir que o público volte para o próximo capítulo”. Mas Pastas Cheias de Mulheres votarão, provavelmente, o voto de Minerva – não as muitas, animadas, agitadas, falantes garotas da Califórnia, mas umas poucas, silenciosas, quietas senhoras do Colorado, Virginia e Ohio.

Notas de rodapé
[1] 17/10/2012, “Group Behind Romney’s “Binders Full Of Women” Doesn’t Remember Story The Way Romney Does” [O grupo referido no episódio “Pastas cheias de mulheres”, de Romney, não lembra o evento nos mesmos termos que o candidato Republicano] TPM.

[2] Brian Wilson é um músico californiano, criador dos Beach Boys, em 1961 [NTs].

[3]1/8/2012, Glenn Hubbard: “The Romney Plan for Economic Recovery”, Wall Street Journal.

Fonte Redecastorphoto. Traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

 

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