Pensando no provável

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Publicado domingo, 30 de março de 2003 as 17:44, por: cdb

Embora mantenham, como é natural, toda a discrição, os altos escalões militares de alguns países sul-americanos trocam informações sobre a necessidade de articular o planejamento estratégico para a defesa do subcontinente.

Há anos que o assunto vinha sendo insinuado, em conversas muito reservadas. O Tratado do Rio de Janeiro – que, irresponsavelmente foi avocado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, logo depois do atentado de 11 de setembro – só serviu ao interesse de nossos países na Segunda Guerra Mundial, em que estava em jogo a defesa contra o nazismo.

Depois disso, a situação mudou. Quando do conflito entre a Argentina e a Inglaterra, os Estados Unidos esqueceram os seus compromissos, entre eles os da letra da “Doutrina Monroe”, de forma descarada, em favor dos ingleses. Ainda que a aventura argentina tivesse sido irresponsável, convém lembrar que o Brasil nunca reconheceu a soberania inglesa sobre as Ilhas Malvinas, nisso acompanhando a posição de Buenos Aires.

Os chefes militares estão prevendo as mudanças que virão depois do resultado da guerra contra o Iraque. Eles não duvidam do êxito puramente militar dos norte-americanos. A situação, conforme sua análise, é bem diferente da que ocorria no Vietnã, que contava com o apoio dos soviéticos. Os anglo-saxões parecem determinados a arrasar a população do Iraque, usando todos os seus recursos, incluídas as armas atômicas táticas, se isso se tornar necessário ao seu objetivo. A única coisa que pode detê-los será a opinião pública, principalmente a interna.

Outro cenário, muito mais dramático, ocorreria com a extensão do conflito, o envolvimento dos países árabes vizinhos e a eventual participação, direta ou indireta, da Rússia e, mesmo, da China. Não se considera provável o envolvimento direto da França e da Alemanha no conflito, mas sim o esfriamento das relações políticas e econômicas desses países com os Estados Unidos.

Mesmo vitoriosos, os Estados Unidos sairão muito debilitados do conflito, e é provável que se fechem no hemisfério, buscando a compensação de suas perdas, no controle maior do que eles consideram o seu “quintal”. Em sua natural arrogância, podem supor que a América do Sul será uma presa fácil. Se eles contarem com a defesa nacional de cada um dos países, isoladamente, poderão agir na estratégia do salame: ir comendo fatia por fatia, até engolir todo o continente. Qualquer um dos países, sozinho, oferece pouca capacidade de resistência – mas a união dos exércitos sul-americanos dispõe de poderosa força dissuasória. É essa a idéia que orienta as conversas sobre o assunto, agora mais freqüentes do que antes.

As condições políticas começam a favorecer a abertura clara de negociações diplomáticas que dêem prosseguimento a essa concepção estratégica, na construção de um Tratado que revogue, na prática, o TIAR. Não é necessário que esse acordo se faça em termos de provocação, mas possibilite a construção do entendimento e a imediata mobilização conjunta, em caso de urgência.

Descompasso
Quem assiste aos noticiários da televisão oficial brasileira (especificamente os da TV Nacional, de Brasília) se surpreende pelo tom ufanista, em favor dos norte-americanos, na cobertura da guerra do Iraque. Ao que parece, também nisso, a TV Nacional procura emular as outras emissoras de televisão e, em alguns casos, suplantá-las. Para começo de conversa, não se pode falar em “tropas aliadas” (denominação positiva, ao lembrar as forças aliadas que combateram contra o nazismo) quando se trata apenas de anglo-saxões, como os ingleses, os norte-americanos e os australianos.

Não vale dizer que os norte-americanos não são mais anglo-saxões, porque dona Condolezza e o general Powell, mestiços, estão entre os falcões. Não vale dizer, porque, como mostra a experiência, os convertidos ao que consideram valores novos são muito mais exacerbados do que os seus portadores originais.

De qualquer forma, o descompasso é evidente: o governo tem uma posição contra a