Pedidos ao ano novo – crônica de Sócrates

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Publicado terça-feira, 7 de janeiro de 2003 as 19:07, por: cdb

“Cuide de todos os meus netos. Principalmente dos mais jovens, Ronaldo, Kaká, Diego e Robinho. Preserve-os daqueles malditos”, rogou o senhor Futebol

Dias atrás, perambulava pelas ruas quando assisti a uma cena algo surrealista. O Ano-Novo, depois de despedir-se de Noel, estava chegando em casa quando deparou com o senhor Futebol a aguardá-lo no majestoso portão. Surpreso e assustado com as feições do amigo, convidou-o para entrar. O outro meneou a cabeça e pediu-lhe um segundo de sua atenção. Antes que começasse a falar, arqueou as pernas e quase caiu. Como passava por ali naquele instante, e quase por reflexo, estiquei as mãos e pude ampará-lo. Coloquei-o sentado no meio-fio e ia continuando minha trajetória, quando fui questionado se não lhes queria fazer companhia. Assenti. Fiquei ali calado a acompanhar o diálogo dos dois.

O anfitrião tinha o aspecto jovial dos que estão apenas iniciando um trabalho prazeroso. O hóspede eventual não parecia nada bem. Suas vestes, apesar de ser de excelente qualidade, talvez fruto de uma origem aristocrática, estavam em mau estado de conservação. Não era um maltrapilho, mas se aproximava disso. Estava extremamente triste e arrasado. Quase não tinha forças para sussurrar palavras. Mesmo assim começou a confidenciar coisas que me incomodaram. Fiz menção de me retirar, ao que fui imediatamente rechaçado.

Dizia o digno senhor que havia descoberto uma série de fatos que não podia entender. Fiquei sabendo que ele habitava uma bela casa na colina ao sul da cidade. Era uma residência que chegara às suas mãos por motivo de herança. Além da mansão, deixaram muitas posses que lhe davam uma vida relativamente estável. Porém, de uns tempos para cá, as coisas pioraram. Suas contas aumentaram consideravelmente e os ganhos, que eram polpudos, estavam minguando. Começou a controlar melhor suas finanças e descobriu que seus empregados estavam roubando indecentemente. Uma verdadeira sangria. Como eram pessoas que há muito o acompanhavam, viera até ali para aconselhar-se com o amigo. Que faria daquele instante em diante era sua dúvida. Sempre os tratara muito bem. Bem até demais. Havia lhes oferecido tudo do bom e do melhor e, no entanto, não havia recebido nem mesmo gratidão. Além disso, seus filhos iam de mal a pior. Alguns haviam entrado em insolvência e, pior, caído em desgraça perante a sociedade. Estavam relegados a um plano inferior.

Tinha de encontrar uma saída, mas sentia-se impotente. Ano-Novo, demonstrando toda sua solidariedade, resolveu ajudá-lo e lhe disse: peça o que quiseres que eu tudo farei para que todos os seus problemas sejam resolvidos. Uma luz incendiou a face do velho senhor Futebol e ele continuou a sua descrição. Depois de agradecer entusiasticamente, chegou aos motivos de seu incômodo: queria que o amigo o ajudasse a despedir seus auxiliares que chamava de ingratos.

O mordomo estava desviando dinheiro do seu cofre há muito tempo e mandando para o exterior: “Ele, desgraçado, que teve durante esse período todo o poder de administrar minha casa, nunca fez nada direito. Acho até que ele quer me ver falido, para imediatamente depois pedir as contas. Nunca gostou de mim; esta é a verdade”. Depois falou do motorista: “Este é quase um crápula. É quem organiza as mesadas de meus filhos, mas ficou com tudo para si. Além disso, destruiu-lhes toda a auto-estima. O desqualificado é insaciável. Pior ainda foi descobrir que ele trabalha para um concorrente meu. Deve passar todos os meus segredos para eles”. Por fim espicaçou a cozinheira: “Só falta colocar veneno em minha comida para que eu morra rapidamente. Não é fácil não”.

De repente o seu semblante, como por encanto, transformou-se: acabara de lembrar-se dos netos. Afirmou que eles eram seu único orgulho e que, apesar das mazelas dos funcionários – e a falência dos filhos -, não se deixaram contagiar. “São alegres, criativos e produzem maravilhas. Gostaria que cuidasse de todos eles, principalmente dos mais jovens. Ron