Paulo Freire: educação como processo libertador

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 22 de setembro de 2011 as 12:12, por: cdb

Noúltimo dia 19 de setembro faria 90 anos o grande educador brasileiro PauloFreire. “Distraídos” estávamos pela vergonha da corrupção, a reunião de NovaYork onde a presidente pronunciou discurso, o Rock in Rio e todas as idas evindas dos times de futebol jogando inumeráveis e sempre novas competições parajustificar seus milionários salários. Por isso, talvez, a data tenha passadomenos celebrada do que seria justo e necessário. E por isso voltamos a elaainda na “oitava” – nos oito dias que se seguem à mesma – para agregarhomenagem a este que tanto a merece.

PauloFreire nasceu em Recife, a 19 de setembro de 1921. Formou-se em Direito em1947, mas cedo revelou sua paixão pela educação e pela cultura. No mesmo ano,assumiu a diretoria da Divisão de Educação e Cultura do Sesi-Pernambuco e em1954 foi nomeado diretor superintendente do Departamento Regional do mesmoórgão, cargo que ocupou até outubro de 1956.

Em1960 doutorou-se em Filosofia e História da Educação ao defender a tese”Educação e atualidade brasileira”, na qual lançou a proposta pioneira de umaescola democrática, centrada no educando e na problemática da comunidade em queestá situado. O objetivo da educação aí traçado por Paulo Freire pretende sercapaz de provocar no estudante a passagem de uma consciência ingênua para umaconsciência crítica e transformadora. Essa tese, levemente modificada, foipublicada sob o título “Educação como prática da liberdade”, primeira grandeobra do notável pedagogo.

Em1962, Paulo Freire criou o Serviço de Extensão Cultural da Universidade doRecife, sendo seu primeiro diretor. E em 1963 sua obra ganhou amplidãonacional, com a experiência de alfabetização de Angicos, Rio Grande do Norte,onde foram lançadas as bases do Programa Nacional de Alfabetização do GovernoJoão Goulart. O golpe militar extinguiu o Programa, que pretendia educar osbrasileiros de forma libertadora, prendeu e exilou seu idealizador.

PauloFreire passou a viver fora do Brasil: Bolívia, Chile, Estados Unidos, Suíça.Nesses países trabalhou incessantemente, escrevendo e disseminando suas ideiasde uma pedagogia que partisse do universo vocabular do oprimido. Edificava seumétodo em palavras geradoras que vão construindo o mundo de expressão doindivíduo situado, o qual passa a ser sujeito de sua história e datransformação que ela exige. Suas obras adquiriram renome mundial e PauloFreire, impedido de voltar à sua pátria, tornou-se um verdadeiro andarilho daeducação, levando suas ideias e propostas mundo afora.

Aindaem Genebra dedicou-se de modo especial ao trabalho de educação em alguns paísesafricanos e fundou o Instituto de Ação Cultural, juntamente com outrosexilados. A anistia o trouxe de volta ao Brasil no início dos anos 1980.Lecionou, então, na PUC de São Paulo e na Unicamp, e assumiu, em 1989, o cargode secretário de Educação da cidade de São Paulo. Em 1997, os olhos incansáveisdo educador que não cessava de observar e “ruminar” a realidade para devolvê-laao povo sob a forma de pedagogia libertadora fecharam-se. No Hospital AlbertEinstein, na capital paulista, o coração que batia em ritmo acelerado em zeloconstante por uma educação que libertasse o oprimido foi atingido por uminfarto do miocárdio.

Amorte, porém, não permitiu que Paulo Freire se ausentasse da frente da cena daeducação no país e no continente. Seu método, que contempla o destinatário daeducação sem empanturrá-lo de ideias a serem consumidas, mas dando-lhe espaçopara fazer emergir suas ideias, criá-las e recriá-las sob a forma de palavras,continua mais vivo do que nunca. O caminho que Paulo Freire ousou seguir naalfabetização sonhava permitir a homens e mulheres se apropriarem da escrita eda palavra, a fim de se comprometerem politicamente a partir de uma visãointegral da linguagem e do mundo. As experiências de vida partilhadas entre oseducandos e a relação entre o educador e o educando eram e são ingredientesobrigatórios do processo educativo, que vai construindo, através dos temas epalavras geradoras dos alunos e sua decodificação, a aquisição da palavraescrita e da compreensão da mesma.

Emtempos de voraz consumo de tudo e de todos, inclusive da educação e do conhecimento,possa a celebração dos 90 anos deste grande pedagogo brasileiro ensinar-nosalgumas coisas fundamentais. Por exemplo, que a educação, seja formal ouinformal, familiar, escolar, ou universitária deve – antes de mais nada -ajudar a pensar sem impor; ajudar a criar sem oprimir; ajudar a interferirlibertadoramente na realidade sem medo e sem censura.

[Autorade “Simone Weil – A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – É proibida a reprodução desteartigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, semautorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].