Partidos eleitorais de direita fragilizados?

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Publicado quarta-feira, 1 de junho de 2011 as 08:11, por: cdb

A atual situação dos partidos eleitorais de direita é contraditória, e cabe a nós compreendermos isso e não deixar as aparências desviarem nossas atenções

 

01/06/2011

 

Editorial 431


A atual conjuntura política brasileira nos tem exigido um enorme esforço para entender a sua complexidade. Um dos desafios é identificar o comportamento dos partidos eleitorais de direita.

Sabemos que a leitura da luta de classes e seus polos em disputa – numa sociedade de massas e de total hegemonia dos meios de comunicação da burguesia – gera muita confusão. E isso pode induzir a simplificações nas análises e nos conduzir a derrotas. A começar pela identificação das forças em conflito, seus métodos, pautas, meios, instrumentos etc. Ou seja, suas táticas.

A atual situação dos partidos eleitorais de direita é contraditória, e cabe a nós compreendermos isso e não deixar as aparências desviarem nossas atenções. Por exemplo, as elites – representadas em seus partidos eleitorais – aparentam cambalear, mas não cairão tropeçando nos próprios pés. Os passos trôpegos, escancarados em recentes comportamentos dos partidos tradicionais dão apenas sinais de fraqueza, mas não de derrota. Basta analisar a situação do PSDB, sem discurso, sem linha clara de oposição, perdendo quadros e recebendo as polêmicas orientações de FHC.

Do mesmo modo, e não menos cambaleante, está o DEM, que mal se recauchutou a partir do findo PFL e já padece de uma crise com a saída de importantes quadros, deixando o partido ainda mais em frangalhos. Desponta o ressuscitar do velho PSD com Kassab e Kátia Abreu no comando, ainda sem muito delinear a que se propõe. Mas já deixou claro o que não quer: se opor a Dilma.

O fato é que os partidos eleitorais de direita carregam no ventre a rearticulação das elites conservadoras e não seu enfraquecimento. Eis a diferença entre os fenômenos aparentes – crise – e o que esta por trás deles – reorganização.

Esse mesmo cambalear ante os olhos de todos também demonstra que os quadros institucionais de direita jogam em diversos times e não estão restritos a essas três siglas mencionadas. Bastaria verificar o jogo duro, e unificado, no episódio recente do Código Florestal. A direita – representada por seus partidos – é ousada e sem pudores. Pautou um tema que reúne grande consenso da sociedade brasileira e mundial – a proteção ambiental – e combinou com as velhas propostas de modernização que conhecemos bem, como expansão da chamada fronteira agrícola e maior liberdade para o capital atuar no campo. Ou seja, propôs, pautou, sustentou e levou. Fomos derrotados! É certo, dirão alguns, que se trata de uma vitória pontual. Mas não esconde o fato: conseguiram ganhar essa batalha.

Aludir que essa direita vive em crise não deixa de ser real. Mas o exemplo nos é pedagógico: mesmo dividida em siglas, joga junto e não perde de vista sua pauta. A postura chega ao ponto de ser ousada no jogo de cena, como fizeram no caso da votação do salário mínimo. Todos estão fartos de saber que esses setores são contrários a qualquer política de distribuição de renda e valorização do salário mínimo, mas para usar os meios de comunicação e tentar enganar o povo se fizeram de defensores dos anseios populares e bradaram ao vento um salário mínimo mais alto do que fora aprovado. Não temos dúvida da discrepância entre o salário mínimo brasileiro e o que deveria que realmente deveria ser um salário digno para o trabalhador, mas sabemos que foi apenas jogo de cena desses setores e o velho proselitismo conservador e patronal.

Outro momento que nos remete à cara de pau desses representantes dos partidos de direita é a recente reaparição do ex-presidente FHC, conhecido por grande capacidade de conduzir as privatizações no país, entregando todo o patrimônio público à iniciativa privada. Em qualquer país esse senhor que se orgulha de ter vendido praticamente todas as nossas estatais a preço de banana seria alvo de investigação criminal e consequentemente preso, juntamente com seus comparsas. Por muito menos, vários ex-presidentes dessa mesma “safra” que atuaram em nossa América Latina, como Alberto Fujimori (Peru), Lucio Gutiérrez (Equador), Gonzalo Sánchez de Lozada e Carlos Mesa (Bolívia), De la Rúa (Argentina) e tantos outros foram e seguem como alvo de investigação do Estado – inclusive, alguns desses vivem foragidos ou em prisões.

Esse deveria ser o destino de FHC. Mas, ao contrário, ele segue atuando, chamou a atenção da sua trupe pessedebista e faz propaganda de seus atos passados como positivos. Mas, como disse o jurista e professor Fábio Konder Comparato ao analisar o governo FHC: “Se nós viermos a ter um governo de reconstrução nacional, é indispensável que todos esses homens, se ainda estiverem em vida, sejam processados perante um tribunal popular e condenados à indignidade nacional. Se eles já tiverem morrido, os atos deles serão julgados e as memórias deles devem ser marcadas com essa condenação de indignidade nacional”.

Portanto, frente a esse cenário, cabe aos setores populares não perderem de vista como esses partidos de direita se reorganizam. Mas, fundamentalmente, é preciso compreender que, mesmo cambaleante, essa direita é forte, pois age com unidade e não perde de vista suas pautas estratégicas. Nesse sentido, precisamos mobilizar o povo, clarear esse cenário confuso e lutar com unidade para derrotá-los nas diversas batalhas que teremos pela frente, sem cair em armadilhas que nos dividam.