Para escritor, Brasil ainda tem medo da verdade

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Publicado quinta-feira, 22 de setembro de 2011 as 16:23, por: cdb

Para escritor, Brasil ainda tem medo da verdade

Eric Nepomuceno avalia que uma comissão é melhor do que nada, mas vê risco de que trabalho resulte inviável ou inócuo por limitações estabelecidas no projeto aprovado na Câmara

Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual

Publicado em 22/09/2011, 18:31

Última atualização às 18:31

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São Paulo – “De qualquer lugar que se olhe, a conclusão é clara: parece que o meu país tem medo da verdade. Não sabe quanta verdade pode aguentar. Prefere ignorar a olhar-se diante do espelho”, afirmou nesta quinta-feira (22) o escritor Eric Nepomuceno, em artigo publicado no jornal argentino Página 12 sobre a Comissão da Verdade brasileira. Para ele, na tentativa de buscar um consenso, o governo foi mais condescendente do que seria justo. Assim, em sua visão, formou-se uma comissão por apenas sete membros e “outros esquálidos” 14 funcionários, sem autonomia financeira. O que pode resultar em “um trabalho claramente inviável, a menos que se pretenda uma ação inócua”.

Segundo Nepomuceno, o Brasil está distante de seus vizinhos no que se refere a investigação sobre crimes de terrorismo de Estado durante a ditadura (1964-1985). “Uma lei de anistia dos militares, em 1979, absolveu de toda e qualquer responsabilidade os torturadores, violadores e assassinos. Nos últimos anos, houve tentativas de examinar novamente essa anistia, mas sem efeito. Sequer a dura condenação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA (Organização dos Estados Americanos), surtiu efeito.”

Ele lembrou que, desde que assumiu a Presidênciada República, Dilma Rousseff assegurou que levaria o projeto adiante, “uma das pendências deixadas” pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “que preferiu não enfrentar abertamente os adversários da ideia”. Para o escritor, o texto foi “ampla e exaustivamente negociado com a oposição e com os militares, a ponto de ter-se tornado tão vago que quase perde o sentido”. Ele citou dois exemplos: a proibição de que se revelem dados e documentos obtidos pela Comissão da Verdade e a possível ausência de um relatório final público. “Mas, apesar de desitratado, é melhor do que nada, melhor do que o hipócrita esquecimento imposto até hoje”, afirma.

Nepomuceno reitera que qualquer comparação com outros países sul-americanos é desfavorável ao Brasil. “Já nem digo com a Argentina, país que foi mais fundo no esclarecimento do terrorismo de Estado e com a punição dos responsáveis, mas com outros vizinhos, como Peru e Chile.” E acrescenta: “Ao misturar em um mesmo caldeirão etapas democráticas, como as de Juscelino Kubitschek ou João Goulart, com a ferocidade dos períodos dos generais Emilio Garrastazu Médici ou Ernesto Geisel, se corre o risco de não chegar a parte alguma, de desmoralização da ideia”.

Mas ele acredita que algo resultará de todo esse esforço, “ainda que não seja mais do que o amargor do fracasso: ter uma comissão de meias verdades”.

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