Para economista, Brasil precisa se preparar para renegociar dívida

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Publicado segunda-feira, 1 de setembro de 2003 as 17:04, por: cdb

O economista Celso Furtado defendeu nesta segunda-feira que o governo brasileiro prepare o caminho para uma renegociação de sua dívida externa e busque reduzir seu endividamento, um forte entrave ao crescimento econômico.

Furtado, um dos mais influentes economistas latino-americanos e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse que a suspensão de pagamentos da dívida, como fez a Argentina, pode ser um instrumento de barganha importante dentro de um quadro de renegociação.

– O Brasil vai ter que resolver e enfrentar o problema da dívida externa. Terá que negociar essa dívida, mas isso mais adiante e quando chegar o momento o Brasil terá que convocar os credores e partir para uma negociação séria, reciclar essa dívida para um período muito mais amplo e taxas mais moderadas – disse ele a repórteres, depois de participar da abertura de um ciclo de seminários sobre desenvolvimento. No mês passado, foi lançada a candidatura de Furtado ao Prêmio Nobel de Economia de 2004.

Perguntado se na mesa de negociações caberia falar em moratória, Furtado, que teve sua candidatura lançada no mês passado para o Prêmmi Nobel de Economia de 2004, respondeu:

– Poderia ser indispensável declarar moratória dentro de um quadro de negociação. Não é para roubar ninguém, nem enganar alguém.

Furtado não comentou quando o Brasil deveria buscar a renegociação da dívida, mas disse que o país está hoje mais preparado para fazê-lo porque ganhou credibilidade junto à comunidade financeira internacional por ter mantido a austeridade fiscal e o compromisso com o combate à inflação.

Essa credibilidade, acrescentou, custou muito caro ao país, que terminou o primeiro semestre em recessão e com altos níveis de desemprego. Segundo o economista, a queda do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre — de 1,4 por cento em relação ao mesmo período de 2002 — mostrou que a recessão ainda é pequena, mas há o risco de uma paralisia mais profunda.

– Não se pode ignorar que esse 1 a 2,0 por cento de hoje em dia pode chegar a 5, 7, 8 por cento (de queda) que num país como o Brasil, que já tem muito desemprego, é gravíssimo – disse ele, acrescentando que a projeção do governo de um crescimento de 3,5 por cento em 2004 é um sonho.

Numa renegociação da dívida, o Brasil teria que estar preparado para tempos difíceis, que provavelmente seriam marcados por uma forte queda no ingresso de capital estrangeiro, disse Furtado. Ele ponderou, no entanto, que o país enfrentaria menos dificuldades que no passado.

– O mercado financeiro se fecha até certo ponto porque ninguém quer perder o Brasil. O Brasil é um bom cliente – disse ele.

O economista também evitou comentar se o Brasil deve ou não renovar um acordo de empréstimos que disponibilizou 30 bilhões de dólares ao país junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e termina no final deste ano.

– Para julgar, qualquer pessoa pode dizer isso ou aquilo, mas é preciso ter informação que o governo é quem tem. O risco que representa uma mudança brusca é muito grande. Portanto, o que o governo deve estar preocupado é evitar solavancos, evitar riscos maiores – afirmou.