Padre faz jejum contra despejo de comunidade pobre

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Publicado terça-feira, 21 de junho de 2011 as 11:27, por: cdb

Pe. José Geraldo de Melo pede que 300 famílias em Itabira sejam realocadas para um lugar seguro

21/06/2011

 

IHU

  

Na tentativa de sensibilizar a Justiça e a prefeitura de Itabira, em Minas Gerais, o Pe. José Geraldo de Melo segue, desde o dia 10-06-2011, em jejum permanente. A Justiça decidiu que 300 pessoas de uma vila pobre, conhecida como Comunidade Drummond, devem ser despejadas até o dia 30-07-2011 para que a terra seja reintegrada aos “herdeiros” que, durante muitos anos, não se manifestaram sobre a posse. Em entrevista à IHU On-Line, por telefone, ele diz que seguirá em jejum até que a situação das famílias seja resolvida. “Há quatro anos, apareceram algumas pessoas que se declararam “herdeiros” dessa área e que reivindicaram na Justiça o direito de tê-la de volta. A Justiça, com o apoio da Polícia Militar, já fez o planejamento para executar o despejo. Como as famílias resistem a sair, tememos que a polícia haja com violência”, afirmou.

Padre José Geraldo de Melo nasceu em Timóteo-MG e tem 49 anos. É vigário episcopal da Região Pastoral I da Diocese de Cel. Fabriciano e Itabira-MG,

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o motivo do seu jejum?

José Geraldo de Melo – Aproximadamente 300 pessoas serão despejadas de uma comunidade de mil moradores aqui em Itabira, em Minas Gerais, dentro de um mês. As famílias receberam um aviso de que têm que deixar a comunidade até o dia 31 de julho. Houve uma decisão judicial apontando para que essas famílias deixem o local. No entanto, elas não têm para onde ir. Muitas vieram de outros municípios e estados e ocuparam a área por não ter outro local onde viver. Assim, iniciei o jejum para sensibilizar as autoridades locais a fim de que façam alguma coisa no sentido de dar segurança a essas famílias, garantindo, ao menos, uma área em que elas possam reconstruir suas casas.

O senhor está em jejum desde o dia 10 de junho. Como o senhor está se sentindo?

O jejum é permanente, estou tomando apenas água, mas estou bem. Estou celebrando missas e comungando normalmente. Muitas pessoas aqui da região estão fazendo jejum também, rezando em prol dessas pessoas injustiçadas. Meu jejum permanecerá até que a situação das famílias esteja resolvida. Meu jejum está ligado a uma mística, a uma convicção no Evangelho e à caminhada cristã.

Por que as pessoas estão sendo despejadas em Itabira-MG?

Itabira é uma cidade que tem mais de 100 mil habitantes e o déficit habitacional é grande. A cidade é o berço da empresa Vale. É uma terra de mineração; um município que não tem como prioridade garantir os direitos sociais para todos. A prefeitura tem um levantamento que indica que há mais de cinco mil pessoas inscritas para moradia popular na cidade. Podemos calcular a partir daí o déficit.

Como é o dia a dia dessas famílias?

Há pessoas que trabalham à noite como vigias; há muitos domésticos e domésticas, pessoas que trabalham fazendo bico; há desempregados. Há muita pobreza nesse local. Cerca de mil pessoas vivem na comunidade. A maior parte delas são crianças e idosos.

O senhor pode nos contar a história dessa região? Como começou a ocupação e como se chegou a esse desfecho?

A ocupação se deu numa área que estava abandonada há 40 anos. Por isso, algumas famílias ocuparam essa área e ali construíram suas casas, organizaram suas vidas. Trata-se de pessoas muito carentes. Há quatro anos, apareceram algumas pessoas que se declararam “herdeiras” dessa área e que reivindicaram na Justiça o direito de tê-la de volta. A Justiça, com o apoio da Polícia Militar, já fez o planejamento para executar o despejo. Como as famílias resistem a sair, tememos que a polícia haja com violência. Devido a isso, temos tentado fazer o possível para que o despejo não seja feito de forma dolorosa e injusta.

As autoridades têm se sensibilizado com o seu jejum?

A sociedade tem se sensibilizado com a minha causa e com o problema que essas pessoas têm vivido. Além disso, a diocese de Itabira tem me apoiado também. A prefeitura tem sido omissa no sentido de não garantir uma área para que essas pessoas possam construir suas casas.

A prefeitura afirmou que já tem um lugar em que essas pessoas pudessem viver…

Foram promessas, mas nada documentado. No momento em que essas promessas poderiam ter sido documentadas perante um juiz, quando tivemos uma audiência, há 15 dias, eles disseram que não teriam condições de cumprir essas promessas. Então, criou-se um impasse.

De onde vieram as pessoas que hoje ocupam a Comunidade Drummond?

Como Itabira é uma cidade de mineração, veio muita gente de fora procurar emprego aqui.

Qual o interesse por trás desse despejo?

Há a especulação imobiliária. Próximo a esse local há um condomínio de luxo sendo construído e os “pobres” que vivem no entorno acabam desvalorizando o empreendimento e uma área que poderia ser considerada “nobre”.