Ouro e urânio servem como pano de fundo à invasão francesa no Mali

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Publicado quarta-feira, 16 de janeiro de 2013 as 12:49, por: cdb
Mergulhado na miséria, o Mali é uma das nações que tentam, até hoje, livrar-se do domínio europeu na África
Mergulhado na miséria, o Mali é uma das nações que tentam, até hoje, livrar-se do domínio europeu na África

Pela primeira vez desde o início da intervenção militar no Mali, as tropas francesas seguiram avançando, por terra, nesta quarta-feira, na direção dos extremistas islâmicos que ocupam posições a oeste e ao norte do país. Enquanto aguarda a chegada da força de países africanos, aliados dos Ocidentais, a França continuou os ataques aéreos nesta terça-feira e anunciou a mobilização total de 2.5 mil soldados no Mali – incluindo os 800 conscritos já mobilizados. Na capital Bamako, cerca de trinta veículos blindados franceses deixaram a cidade em direção ao norte. Os malineses que combatem o atual governo neoliberal, privatista e monitorado pelo FMI, são classificados como terroristas.

Em Nova York, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, expressou apoio à operação francesa e falou sobre a necessidade de uma reconciliação política no país. Reunidos em Londres, os diretores políticos do G8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido, Itália, Japão e Rússia) elogiaram a intervenção francesa no país rico em urânio e ouro. Três quartos dos franceses aprovam a intervenção militar francesa no Mali, segundo uma pesquisa de opinião do instituto BVA para o jornal francês Le Parisien/Aujourd’hui em França, divulgada nesta quarta-feira.

Quase dois terços dos franceses (64%), no entanto, acham que a operação do exército francês no Mali pode “aumentar a ameaça terrorista” na França. O estudo é da CSA para a BFMTV, publicada na véspera. A sondagem revela que 70% dos simpatizantes de direita temem ataques terroristas de retaliação, contra 57% dos simpatizantes de esquerda. A título de comparação, em março de 2011, intervenção militar na Líbia, em seu início, contava com um pouco menos de apoio – 66%. Dez anos antes, em outubro de 2001, a porcentagem de franceses a favor da invasão do Afeganistão era de 55%.

As minas de ouro e urânio são exploradas por organizações europeias
As minas de ouro e urânio são exploradas por organizações europeias

O Mali é um dos países mais pobres do planeta, embora seja o terceiro maior produtor de ouro na África (depois da África do Sul e de Gana, que é um outro país afundado na miséria). Em Mali, o salário médio anual é de US$ 1,5 mil e quase metade de sua população vive na miséria, abaixo da linha de pobreza, com menos de um dólar por dia. Aproximadamente 90% dos malinenses são muçulmanos de maioria sunita. Os cristãos representam 5% da população de cerca de 13 milhões.

Outras fontes de riqueza naturais abundantes no país são o urânio, o fosfato, o caulim, o sal, o calcário. A independência da colônia francesa foi conquistada em 1960, mas a região sempre viveu em estado de guerra civil, sendo divida em dois países, Mali e Senegal, sob golpes militares e conflitos tribais. Presidente francês, o socialista François Hollande confirmou que a legião francesa irá combater grupos armados islâmicos e apoiar as tropas locais “respeitando a legitimidade internacional”, a pedido do presidente do Mali, Dioncounda Traoré.

Recuo dos guerrilheiros

Após um ataque dos guerrilheiros muçulmanos à cidade vizinha de Diabaly segunda-feira, os fugitivos se refugiaram na cidade de Niono, de 15 mil habitantes, a meio caminho entre Ségou e a fronteira da Mauritânia. Um grupo de refugiados deixou a aldeia de Diabaly ocupada pelos jihadistas, que agora se torna a frente sul de resistência aos franceses. A intervenção do exército francês no Mali entra agora em uma nova fase. Após os ataques aéreos, as forças francesas começaram ocupar terreno. Um grupamento com 30 blindados partiu rumo ao norte, ao mesmo tempo em que unidades francesas seguiam para Diabaly.

Em Dubai, onde passou a noite, François Hollande assegurou que o exército francês não tem a “intenção de permanecer no Mali”.

– A segurança no Mali é mais importante e agimos de acordo com as autoridades legitimadas no processo eleitoral – afirmou o presidente francês.

A realidade, no entanto, é a outra. A França chegou para ficar e os seus militares mostram a musculatura do poderio bélico francês. Atualmente, 750 soldados estão presentes no solo de Mali. Eventualmente, este número deverá chegar a 2,5 mil, segundo o Ministério da Defesa. De volta a Paris, nesta quarta-feira, François Hollande presidiu uma nova sessão do Conselho de Defesa. A guerra que começou em 11 de janeiro vai durar.

O ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, garantiu que a Força Aérea continuará com seus ataques, se necessário “em todo o Mali”. Dois Mirage F1 foram enviados para Bamako com esta finalidade. Grupos armados constituem um “adversário ágil, determinado, bem equipado e bem treinado, capaz de se esconder no terreno e na vegetação”, disse o ministro. Paris, no entanto, iniciou nesta manhã uma intensa atividade diplomática para sair do foco direto contra islamistas armados, mas o exército malinês está quase fora do jogo, despreparado e sem condições táticas de enfrentar “um inimigo disposto e bem armado”, segundo informes da inteligência francesa.

As primeiras críticas do mundo árabe-muçulmano, no entanto, começaram a ser ouvidas. O Palácio do Elisée determinou que o nível de segurança das instalações francesas no Cairo fossem elevadas ao máximo e pediu às autoridades egípcias que reforcem a sua segurança. Aos deputados, o primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault, assegurou que Paris foi certamente a “linha de frente” contra os grupos jihadistas, mas que “forças africanas” entrariam no teatro de operações “dentro de uma semana. ”

Após meses de adiamento, a mobilização internacional realmente parece estar se acelerando. Os Chefes do Estado Maior da África Ocidental encontraram-se em Bamako para se preparar para a “libertação” do norte do Mali, tomado por grupos islâmicos armados há nove meses. Enquanto isso, as primeiras tropas africanas já começam a trabalhar. A Comunidade Económica da África Ocidental (CEDEAO) devem formar uma força de intervenção de 3,3 mil soldados, de acordo com uma resolução da ONU.

Chamada Misma (Missão Internacional de Apoio no Mali), a força africana será comandada por um general nigeriano, Shehu Abdulkadir. A Nigéria prometeu 900 homens, e será a primeiro a chegar “nas próximas 24 horas”, segundo Abuja. Níger, Burkina Faso, Togo e Senegal também anunciaram o envio de cerca de 500 homens, 300 do Benin, Guiné e Gana 100 cada um. Chad também deverá contribuir. Nestes países, os governos buscam o alinhamento com as forças do Ocidente.

Na véspera, os franceses prestaram uma homenagem nacional, nos Invalides, ao tenente Damien Boiteux, morto em ação durante o desembarque no Mali.