Os vencedores

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Publicado segunda-feira, 5 de novembro de 2001 as 20:23, por: cdb

“Se quiséssemos, enviar-lhes-íamos do céu um sinal ante o qual suas frontes se humilhariam.”
( Alcorão-26,4)

Quer se goste ou não, a guerra que os Estados Unidos e seus aliados travam contra o que eles chamam de terror já tem dois vencedores. A indústria bélica e Bin Laden. A indústria bélica porque conseguiu um país inteiro para realizar novos testes e para se livrar das armas que considera obsoletas. Bin Laden porque, vivo, será aclamado como herói; morto, será o primeiro mártir do século 21. Graças ao Ocidente, muçulmanos de todo o mundo, que até então ignoravam a existência do saudita e condenavam o governo taleban, acompanham com apreensão o desenrolar dos acontecimentos no Afeganistão. Pela primeira vez na história, assiste-se a manifestação de uma Internacional Islâmica a lembrar a Guerra Civil Espanhola, quando internacionalistas de todo o mundo se uniram para enfrentar o fasci-nazismo.
Com o fim da Guerra Fria, a corrida armamentista perdeu sua razão de ser. Mas uma indústria que fatura 1 trilhão de dólares por ano e que vive da morte não ia entregar os pontos sem mais nem menos. Era preciso encontrar imediatamente um novo inimigo. Mas teria de ser um inimigo substancial, que substituísse o Império do Mal, como era denominada a União Soviética. Por isso não foi nenhuma surpresa a manifestação de Bush após os atentados e, até hoje, sem nenhuma prova, acusar os muçulmanos adjetivando-os, sintomaticamente, de Império do Mal.
Qualquer semelhança com o antigo inimigo soviético não é mera coincidência.
A partir daí, teria início a Jihad ocidental.
O clima de intolerância, de racismo e de ódio contra os muçulmanos contou com a adesão imediata da mídia, que ignorou seu papel de informar, para se transformar em feroz propagandista. Manipulou até a declaração do papa, associando-a à conclamação para a guerra santa do reverendo-moteleiro Billy Graham. O que a mídia do Ocidente faz por convicção a mídia terceiro-mundista faz por ignorância, ou por desconhecimento total do mundo que a cerca.
Que não se enganem. O Afeganistão é apenas um dos palcos de luta. Outros teatros deverão ser montados, de preferência alguma nação miserável de religião islâmica. E os muçulmanos não ignoram isso. Basta ver o que acontece na Palestina. Os territórios ocupados assistem à invasão de tanques israelenses, numa arrogância sem par. Mas isso também já era esperado, ou alguém ignora o passado de Sharon?
Quem se esquece dos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano?
Ou do desfile diário de palestinos, carregando seus mortos rumo aos cemitérios?
Ou das crianças que servem de alvo para os fuzis dos soldados hebreus?
Mas alguém pode entender um povo que elege um criminoso de guerra?
Aos apressados informo que há um processo no Tribunal de Haia acusando Sharon por crimes contra a humanidade.
Ao contrário do que muitos supõem, os atuais revolucionários islâmicos possuem educação secular. São médicos, engenheiros e profissionais de outras áreas que não se deixaram contaminar pela sociedade de consumo. Utilizam palavras de ordem que a esquerda assinaria embaixo. Acusam os Estados Unidos de responsável pela manutenção de governos brutais e repressores, que idolatram a moeda, conspurcam o solo sagrado de Meca e ofendem Allah.
Segundo a ONU, nos próximos dois meses deverão morrer mais de 7,5 milhões de afegãos pela fome. E que cada míssil disparado pelos Estados Unidos daria para alimentar 50 mil afegãos durante um mês.
Mas alguém se importa?
No Alcorão está escrito que tudo o que há no céu e na terra pertence a Deus. E que Ele não gosta dos mustakbirun (arrogantes). E são esses mustakbirun que hoje governam a humanidade que, apesar dos avanços tecnológicos, matam pela fome e pela exclusão mais do que todas as guerras, desde a aurora da humanidade. São eles os culpados pela jahiliya ( ignorância e barbárie).
Lutar contra a jahiliya é salvar a humanidade.

* Georges Bourdoukan é jornalista e escritor, autor de A I