Os cenários ocultos do caso Battisti

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Publicado sábado, 8 de dezembro de 2012 as 16:05, por: cdb

Os cenários ocultos do caso Battisti é hoje um livro, lançado em São Paulo, pelo escritor Carlos Lungarzo. A luta em favor de Battisti começou no Direto da Redação e aqui no Correio do Brasil, que nestes anos, se transformaram para mim numa tribuna, cujas ressonâncias vão bem além de Miami e de seus leitores no Brasil, graças à mídia alternativa que republica e faz circular meus artigos entre milhares de brasileiros.

Duas lutas, vitoriosas depois de alguns anos, tiveram grande destaque no Direto da Redação e Correio do Brasil, a primeira foi em favor dos Brasileirinhos Apátridas, restituindo a nacionalidade brasileira nata aos filhos dos nossos emigrantes nascidos no Exterior e transformada na Emenda Constitucional 54/07, graças a milhares de emigrantes e não emigrantes, portadores da mensagem ao governo e a parlamentares, como Lúcio Alcântara, Carlito Merss e Rita Camata.

A segunda foi nosso combate pela não extradição do italiano Cesare Battisti, preso no Rio de Janeiro, acusado, sem provas, de ter cometido crimes na Itália, fazia mais de 30 anos, como participante de um grupo extremista de esquerda. Meu primeiro artigo saiu aqui no Direto, em março, uma semana depois da prisão de Battisti e nele procurei informar meus companheiros de esquerda do risco do Brasil cometer uma injustiça – devolver Battisti à Itália e ao governo neofascista de Berlusconi.

Nesse momento, para mim tudo parecia clara o suficiente, a necessidade de todos nós nos unirmos em favor de Battisti. Sem dúvida, logo haveria companheiros no Brasil empenhados em salvar Battisti. Três meses depois, em visita a familiares no Brasil, fui informado pelo amigo Aparecido Araújo (um ativo militante da mídia alternativa) ter sido publicado um artigo na revista Carta Capital, pela extradição de Battisti.

Ora, a Carta Capital goza do prestígio de ser uma revista de esquerda ou centro-esquerda e Battisti seria sem dúvida extraditado, pois não só Lula como seus ministros, o PT e a esquerda em geral seguiriam a interpretação da revista de Mino Carta. Não havia outra alternativa senão a de arregaçar as mangas e comprar a briga contra a Carta Capital e de enfrentar Mino, tarefa nada fácil visto o porte do jornalista do qual eu mesmo tinha sido admirador pela coragem demonstrada nos anos da ditadura militar.

Felizmente, surgiram logo após minha carta ao Mino (publicada no Direto, no Correio do Brasil e no blog do Mino) dois grandes apoios – o do participante da resistência armada à ditadura militar, Celso Lungaretti, e do professor universitario e também jurista Carlos Lungarzo. Foi quando a escritora francesa Fred Vargas foi ao Brasil contratar advogado e encontrar autoridades e políticos em favor de Battisti. Eduardo Suplicy, Fernando Gabeira, Dalmo Dallari eram contra a extradição, porém eram poucos nomes isolados.

Quando Luiz Paulo Barreto, do Conare, votou contra Battisti, sentimos que o pior poderia acontecer. Felizmente, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, anulou, imaginávamos, a decisão do Conare, concedendo asilo a Battisti.

Battisti deveria ser libertado naqueles dias, mas o então presidente do STF, Gilmar Mendes, se negou a conceder a liberdade a Battisti, contestou a decisão do ministro Genro, e quis transformar a questão da extradição de Battisti num debate político e numa primeira tentativa do STF de ultrapassar seus poderes e, além de ignorar a decisão do ministro da Justiça, decidir pela extradição, retirando do presidente Lula essa prerrogativa.

Foram dois longos anos, nos quais Battisti ficou preso, e podemos dizer, preso ilegalmente. Chamado ao outro front, o dos emigrantes, deixei a luta para Celso Lungaretti e Carlos Lungarzo, mesmo porque ela assumia feições jurídicas e já mobilizava muitos companheiros de esquerda.

Na quinta-feira, 6 de dezembro, Carlos Lungarzo lançou em São Paulo, o livro Os Cenários Ocultos do Caso Battisti, pela editora Geração Editorial, do amigo Luiz Fernando Emediato. Ali estavam, na livraria Cultura, no Shopping Bourbon, na Pompéia, o incansável combatente Celso Lungaretti, e o próprio Cesare Battisti, que eu mesmo não conheço pessoalmente.

Quem ler o livro vai saber porque havia tanta gente interessada, inclusive ministros do STF, em perseguir e extraditar Cesare Battisti. E porque o ex-presidente Lula, no seu último dia de governo, decidiu dar residência no Brasil a Battisti.

Foi a vitória contra o linchamento de um homem, como diz Lungaretti.

Infelizmente, aqui longe não pude estar presente com meus companheiros mas lembrei dessa grande vitória de alguns contra poderosas máquinas do poder. Publicado originalmente no site Direto da Redação

Rui Martins, jornalista, escritor, líder emigrante