Os brancos se entendem

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Publicado terça-feira, 14 de setembro de 2004 as 12:36, por: cdb

A adesão do líder russo Vladimir Putin à Doutrina Bush da Guerra Preventiva faz lembrar o ditado velho, de que “os brancos sempre se entendem”, mesmo que seja por pouco tempo. A Chechênia, que divide Bush e Putin, une os dois, neste momento. Aos norte-americanos interessava – e ainda interessa – manter o movimento independentista da pequena nação do Cáucaso, movido pela esperança de, conseguida a autonomia, dominar a área, estratégica para a saída do petróleo da região.

Mas se interessa a Washington retirá-la do controle de Moscou, interessa-lhe menos entregá-la aos radicais islâmicos. Sendo assim, aos dois é conveniente associar a repressão aos chechenos à repressão norte-americana ao terrorismo muçulmano.

Pelo que se sabe, agentes da CIA se movem, há tempos, em toda a região, e não são desprezíveis as suspeitas de que estejam financiando atos de resistência chechena, a fim de manter a tensão nas encostas do Cáucaso. É até provável que os muçulmanos, por suas próprias razões, estejam atuando na insurreição contra Moscou, mas será ingenuidade supor que outros fatores, ainda mais fortes, como a natural aspiração à independência, não movam os terroristas.
Como a História demonstra, quase todas as insurreições são atos de resistência.

Mais ainda: toda a História tem sido a de uma insurreição continuada contra uma opressão continuada. A partir desse raciocínio, a Chechênia não é diferente do Iraque, nem do Afeganistão. E muito menos da Palestina, submetida ao terrorismo do Estado de Israel, que ocupou ilegitimamente o território, e empregou o terrorismo contra os ingleses, não como ato de resistência, mas como ato de agressão e conquista. Hoje, a Palestina é obrigada a resistir a pedradas contra os mísseis disparados pelos helicópteros. E a América Latina, por mais distante esteja do Cáucaso, se encontra na mesma economia global, o que deve convocar nossas reflexões.

No caso particular do massacre das crianças de Beslan, a estupidez esteve dos dois lados – como costuma ocorrer. Usar crianças como reféns é abominável, mas não é menos criminosa a invasão do lugar por soldados armados, que atiraram não só nos seqüestradores e nas crianças, mas contra todos e contra tudo. Os especialistas em psicologia de guerra dizem que os atacantes têm mais medo do que os atacados, e há quem use o argumento para explicar massacres como os do Carandiru, e talvez o venha a usar no episódio de agora. De qualquer maneira, houve precipitação no assalto militar à escola ocupada pelos insurretos. Havia ainda algum tempo para as negociações, mas Putin decidiu endurecer o jogo. Ele pode ter tido as suas razões de Estado, mas não teve as razões da Humanidade.

O episódio demonstra, junto a tantos outros, que nenhum povo está imune a essa conflagração permanente entre ricos e pobres, entre brancos e mestiços, que de vez em quando se exacerba nas agressões abertas. Os chechenos são brancos (e dos mais puros, posto que caucasianos), mas são pobres e relativamente desarmados. Se estivessem dispostos a aceitar a manutenção do jugo moscovita, tudo bem. Mas, estimulados pelos agentes norte-americanos decidiram lutar pela autonomia de seu território.

Os russos, por seu lado, que sabem da presença da CIA na Chechênia, e já se inquietam com a grande presença militar ianque na bacia do Cáspio, querem assegurar os seus interesses. Como, no entanto, não querem afrontar-se diretamente, usam os argumentos do adversário, entre eles o da necessidade de atacar sem aviso os chamados terroristas, em qualquer parte do mundo.

A isso se acresce a circunstância de que Bush e Cheney têm interesses pessoais no petróleo do Cáspio, como, de resto, no petróleo do mundo inteiro. Bons jogadores de xadrez, os russos oferecem aos norte-americanos essa aliança, em hora eleitoral, a fim de ganhar tempo. Eles sabem que, mesmo tendo sido demolida a União Soviética, a força da velha Rússia ainda é ponderável, e cabe re