ONU debate texto dos EUA sobre Iraque

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Publicado quinta-feira, 4 de setembro de 2003 as 17:00, por: cdb

Os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, divididos desde o início da crise iraquiana, começam a examinar um projeto de resolução americano que procura obter ajuda militar e econômica da comunidade internacional. O conselho se reunirá nesta sexta-feira para estudar informalmente e a portas fechadas o texto, disse o embaixador britânico Emyr Jones Perry, que exerce a presidência do órgão neste mês.

Em Nova York, foram diversas as reações dos diplomatas à iniciativa de Washington. – É um passo significativo numa boa direção”, declarou o embaixador mexicano Aguilar Zinser, freqüente crítico de Washington. Seu colega chileno Heraldo Muñoz frisou que o projeto representa “um passo positivo” embora “não sabemos se suficiente”.

A iniciativa americana apresentada quarta-feira é, na opinião de Zinser, “um primeiro projeto que permite trabalhar, um ponto de partida”. O ponto de vista é compartilhado pelo embaixador alemão Gunter Pleuger, que o considera “uma boa base de trabalho”. “Veremos até onde podemos ir”, acrescentou.

O secretário de Estado americano Colin Powell afirmou que o projeto procura responder às demandas de países como França e Alemanha.

– Acho que a resolução foi preparada de maneira a responder às inquietações de dirigentes como o presidente (Jacques) Chirac e o chanceler (Gerhard) Schroeder – disse Powell. O otimismo de Powell foi relativizado, no entanto, pelas reações dos dois líderes europeus.

Para Chirac, o projeto americano está “bastante afastado do objetivo prioritário” da França, “a transferência da autoridade a um governo iraquiano”. Quanto a Schroeder, acha que a iniciativa “não é suficiente” e não vai “bastante longe”.

A Rússia, outro proeminente membro do grupo, que criticou a invasão ao Iraque e se opõe à política de Washington no país, não comentou nesta quinta-feira o projeto de resolução. Mas o presidente Vladimir Putin declarou sábado em Moscou que não via “nada de ruim” no estabelecimento de uma força internacional no Iraque sob o comando americano, se contasse com a autorização das Nações Unidas e esta pudesse desempenhar um papel concreto no país.

Segundo vários diplomatas que pediram para não ter o nome divulgado, o projeto americano não parece cumprir com essas condições. Tampoco cumpre com a necessidade de transparência na utilização de recursos internacionais destinados à reconstrução do Iraque. As perspectivas políticas para o Iraque “permanecem difusas”, advertem esses diplomatas.

O texto afirma que a ONU desempenha no Iraque de pós-guerra um “papel vital”, uma expressão que não é suficientemente precisa nem categórica para quem se opõe à ocupação britânico-americana do Iraque. No entanto, a iniciativa reduz o papel da força multinacional à de proteção do pessoal da ONU, das instituições iraquianas e da infra-estrutura econômica e humanitária, assinalaram vários diplomatas.

– O projeto de resolução cria uma segunda força, junto à da coalizão, para se encarregar do que, do ponto de vista do direito internacional, cabe à potência ocupante – disse um dos diplomatas. Ao mesmo tempo, esta “permanece fora de qualquer controle internacional”, acrescentou.