Onde fica o Brasil?

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Publicado terça-feira, 26 de agosto de 2003 as 20:38, por: cdb

Na semana que passou o noticiário foi dominado pela morte de brasileiros: a do embaixador Sérgio Vieira de Mello no Iraque e a dos 21 técnicos em pesquisas aeroespaciais em Alcântara, no Maranhão. Este último episódio, além da tragédia dos mortos e dos seus familiares, trouxe à tona um debate sobre fragilidades na condução do respectivo programa no Brasil, além de uma hipotética, ainda que remota, tese de sabotagem.

Esta última hipótese, ainda por confirmar se há mesmo qualquer fundo para conduzir investigações, junto com a morte também trágica do embaixador e de outros funcionários da ONU em Bagdá, mostrou, pela perplexidade geral, o quanto não estamos acostumados a perceber a dimensão internacional dos conflitos e situações que ocorrem no Brasil, ou que envolvem brasileiros.

Quando os portugueses chegaram ao futuro Brasil, o conhecimento vulgar não sabia muito bem onde eles tinham aportado: se a um continente, se a uma ilha. Durante décadas, apesar das provas colhidas por Américo Vespucci em contrário, ainda se pensou que aquelas costas coalhadas de palmeiras do Oiapoque ao Mampituba (o Chuí só entrou para o futuro Brasil bem depois) pudessem ser ou as lindes do continente asiático, ou alguma ilha à deriva no oceano. Isso mesmo, à deriva, pois de acordo com antigas legendas celtas, a oeste do continente europeu haveria uma ilha, chamada de Hy Brazil, que se moveria pelos oceanos.

O fato da colonização inicial do futuro país trazer degredados, fugitivos e dar-se também por sucessivas marchas para o interior, aumentou uma sensação de isolamento que passou a permear entre os que aqui ficavam, ao lado de uma certa nostalgia em relação à metrópole.

O desenvolvimento histórico trouxe a família real para o Rio de Janeiro, e com ela a percepção de que o Brasil deixava de ser uma colônia para sediar um império. Quando se quis retorná-lo à condição de colônia, veio a independência. Ao império sucedeu uma república de dimensões continentais, que teve entre suas primeiras providências, além das guerras sangrentas por hegemonia, como a da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893 – 1895), convocar tropas no país inteiro para massacrar os camponeses em Canudos, fato que consolidou a nossa “unidade” nacional.

Mas essa dimensão imperial, e continental, só fez aumentar a sensação ilhôa. Temos a impressão de que vivemos num “mundo”, o Brasil, e que o “outro mundo” é uma coisa muito distante, quando não meio vaga. Surpreendemo-nos ainda com constatações como a de que houve um escritor baiano que lutou nas tropas de Napoleão, um oficial pernambucano que lutou com Simon Bolívar, que patriotas e republicanos italianos lutaram ao lado dos farroupilhas pela república, porque a luta também era contra os Bragança, que eram aliados na Europa dos Habsburgo austro-húngaros, que dominavam o norte da Itália. Havia mercenários austríacos entre as tropas que lutaram pelo Império no Rio Grande do Sul, naquela ocasião.

Temos uma consciência meio vaga de que a diplomacia brasileira foi precoce entre os países americanos, pelo menos desde as lutas no Prata a partir de 1845, mais ou menos, e que o Itamarati é dos setores mais profissionais do Estado Brasileiro e da diplomacia internacional.

Subitamente os “mundos”, o nosso e o outro, colidem, nestas tragédias que enlutaram o país. E nos surpreendem. E nos damos conta de que a globalização não é uma panacéia nem um purgante inventado pela mídia ou pelo pensamento conservador contemporâneo. Ela é um fato desde os tempos de Colombo e Cabral e desde esse tempo “estamos no mundo”. A guerra no Iraque era algo em geral criticado, às vezes até defendido por comentaristas na mídia brasileira. Mas era um fato que se passava “lá longe”. Subitamente o luto aproximou a guerra das imagens do nosso cotidiano e aquela possibilidade, ainda que pouco provável, de uma sabotagem em Alcântara, nos trouxe a consciência de que participamos, talvez, de uma nova “guerra f