Onde estão as bandeiras de antanho?

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Publicado quarta-feira, 6 de outubro de 2004 as 12:22, por: cdb

As eleições municipais não chegaram a termo. Mas já se podem traçar algumas análises e interpretações bem claras.

A primeira delas diz respeito a cortinas de fumaça que ajudam a embotar a percepção. Primeira cortina: “predominaram os temas locais ou os federais”? Segunda cortina: “desapareceram diferenças como esquerda e direita”. Terceira cortina: “o PT e o PSDB estão ficando iguais, ambos praticam uma política social-democrata”.

A polarização entre esquerda e direita nunca foi tão nítida numa eleição municipal como nesta, sobretudo nos grandes centros metropolitanos, mas também em cidades grandes ou médias. E a polarização à esquerda ficou com o PT; à direita com o PSDB. E deu-se em função de temas locais, onde desponta a questão de como enfrentar – no plano municipal – a pobreza endêmica nas cidades brasileiras.

Onde ganhou, onde se manteve, onde está na disputa, o PT e seus aliados conquistaram seu eleitorado com sua mensagem historicamente carregada de sentido social. Por seu lado, o PSDB derivou fortemente à direita. Hoje ele é o partido da direita paulistana e nacional. No imaginário peessedebista, a coligação feita no passado com o PFL tinha o seguinte perfil: o braço direito era o PFL, com seus caciques e coronéis, necessários “para manter a governabilidade”. O braço esquerdo era o PSDB, inclinado a “atualizar a cena brasileira”, rompendo com o populismo degradante e o estatismo arcaico.

Os coronéis e caciques entraram em declínio. E junto com eles, além do PFL, foi outro tradicional reduto da direita em São Paulo: a votação em Maluf. No PFL está em ascensão um populismo de direita, cuja expressão maior se deu no Rio de Janeiro, com César Maia, e em Fortaleza, com Moroni Torgan, que foi para o segundo turno, derrotando inclusive o PSDB local.

A direita tradicional abandonou candidatos até pouco seus favoritos, e acorreu para o PSDB, que tornou-se o partido dos ricos e de seus seguidores. É isto que explica o salto de Serra em São Paulo, dos 35% que o igualavam a Marta, para os 43%, que podem desde já fazer a diferença.

Isto foi uma solução para o partido recuperar uma identidade, mas será um problema no futuro, pois aquilo que era visto como uma aliança externa entronizou-se agora como uma condição interna. A burguesia paulistana vai apresentar a conta a Serra, se ele vencer, em termos da administração da cidade. Se não for satisfeita, refluirá para outros arraiais.

No lado petista, o caso mais emblemático foi o de Fortaleza. Não é verdade, como se tem apregoado, que Luizianne Lins “foi abandonada pelo PT”. É o contrário: ela foi abandonada, ou até desautorizada, pela cúpula do partido e pelo Palácio do Planalto. Mas o crescimento de sua candidatura ganhou impulso com a verdadeira chuva de políticos petistas, entre eles alguns ministros, em Fortaleza, para dar-lhe apoio. Eram apoios que não vinham apenas da área tradicionalmente conhecida como “a esquerda do partido”, a Democracia Socialista ou a Força Socialista. Eram políticos de todas as tendências, e todos de grande expressão nacional.

Houve outro fator que fez a diferença no caso de Luizianne: foi uma campanha voltada para a militância, e feita através da militância. Aquilo que dependia da “máquina nacional do partido”, os concertos pagos e os artistas contratados, ficou com a candidatura de Inácio Arruda, do PCdoB. As bandeiras, o coração em punho, ficou com Luizianne. E ela foi para o segundo turno. Se vai ganhar é outra história, mas já fez bonito.

Estas bandeiras fizeram falta em São Paulo. Esta é uma cidade que tem um conservadorismo latente ou explícito muito forte. Desde o fim da ditadura a cidade teve apenas duas gestões à esquerda: a de Erundina e a presente, de Marta Suplicy. O desempenho do PT na cidade sempre dependeu do empenho da militância, do convencimento. Dessa vez, as bandeiras, o coração na mão da militância, ficaram recolhidas. Em se