Ofício de relojoeiro faz sonhar novamente

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Publicado segunda-feira, 12 de março de 2012 as 04:03, por: cdb

Em época de vendas excepcionais, a relojoaria suíça formou um número recorde de aprendizes em 2011.

Cada vez mais jovens, mas também adultos que querem mudar de profissão, estão interessados por esse ofício que tinha perdido atratividade depois da crise da indústria relojoeira dos anos 1970.

“Um movimento que oscila é como um coração que bate”, afirma Isabelle Musitelli, 38 anos, aprendiz relojoeira, que confessa uma paixão por seu novo ofício desde uma visita ao Museu da Relojoaria de La Chaux-de-Fonds (oeste) em 2007. “Sou atraída pela tradição, pelo saber fazer, pela minúcia. O que mais gosto é de montar o movimento e fazê-lo ter vida”, acrescenta. Ela faz um curso noturno de seis anos para obter o almejado CFC (diploma federal) de relojoeira praticante.
 
Desde o final da escolaridade obrigatórias, aos 15 anos de idade, Isabelle Musitelli trabalhou em vários lugares, principalmente como vendedora e, mais recentemente, no controle de qualidade na indústria. Atualmente desempregada, ela pretende obter o diploma para conseguir um emprego estável.
 
Responsável da formação no Centro Interregional de aperfeiçoamento de Tramelan (oeste), André Mazzarini constata um grande interesse pelos diferentes módulos na formação de relojoeiro. O perfil dos candidatos é muito variado, mas existe uma tendência: “Entre as mulheres, são pessoas sem qualificação, ativas nos setores de vendas, restauração ou saúde, que procuram um emprego mais estável, com horários mais regulares e melhor remunerado. Os homens que pretendem mudar de atividade geralmente já uma bagagem técnica.”

Thomas Paley acha que seu futuro ofício tem uma boa reputação na Suíça. (swissinfo)

Faltam formadores

No liceu técnico de Bienne (oeste), as classes também continuam cheias. Os alunos eram raros 15 anos atrás, mas agora são tantos que fazem testes para de admissão para as 12 vagas disponíveis. “Se encontrássemos outros formadores, poderíamos aumentar o número de alunos. Mas as pessoas que capazes têm salários bem melhores na indústria”, lamenta Daniel Dietz, diretor.
 
Formador na turma de 3° ano, René Maillat lembra-se de uma época não tão distante em que o ofício estava desacreditado. “Em 1988, eu era o único aprendiz no liceu técnico de Porrentruy (estado do Jura, oeste). Se não fosse eu, eles teriam fechado”, conta. Depois da crise do quartzo, uma grande quantidade de relojoeiros abandonar o ofício para se tornar zeladores, policiais ou funcionários de alfândega.  
 
Hoje os tempos mudaram: “A revalorização começou há 20 anos com o retorno do relógio mecânico”, explica Romain Galeuchet, da Convenção Patronal da Indústria Relojoeira. “Constatamos uma progressão regular do número de aprendizes há vários anos. A crise de 2008-2009 provocou um pequeno recuo, mas não de maneira significativa.”

Melhor relojoeiro do que bancário

Alguns ofícios da relojoaria, como o de micromecânico, que consiste a fabricar peças muito pequenas de relógios, ainda têm pouco interesses. “De fato, temos dificuldade em contratar nessa área”, confirma Emmanuel Greubel Forsey. “Mas de maneira geral nos últimos anos houve esforços das autoridades na formação.”
 
Para Emmanuel Vuille, todos os setores da relojoaria ganharam notoriedade: “Trabalhar na relojoaria tornou-se prestigioso, é profissão é mais valorizada do que a de bancário ou professor”, acrescenta.
 
“A revalorização do ofício é mais social do que financeira”, sublinha André Mazzarini. “Somente os profissionais muito qualificados podem negociar altos salários. No final da aprendizagem, os salários se situam geralmente entre 3.500 e 4.000 francos por mês.”

” Trabalhar na relojoaria tornou-se prestigioso, a profissão é mais valorizada do que a de bancário ou professor. “
Emmanuel Vuille, diretor da empresa Greubel Forsey.O gosto pelo luxo

“A indústria é um pouco avara, mas as regalias sociais dos grandes grupos são interessantes”, afirma Jean-Marc Mattey, formador e descendente de grande família de relojoeiros. “O que faz os jovens sonharem são as possibilidades de evolução rápida nesse ofício, as oportunidades de se instalar no estrangeiro e o fato de trabalhar com produtos prestigiosos.”
 
Na classe de René Maillat, os aprendizes têm ideias claras: além do amor pelo trabalho bem feito, os gosto da precisão e da minúcia, os futuros relojoeiros também optaram por um ofício que lhes possibilita de aproximar de um universo de luxo e glamor. “É um orgulho saber que personalidades célebres usam relógios suíços no pulso”, afirma Tiffany Nobs.
 
Thomas Paley gostaria de trabalhar na Jaeger LeCoultre ou Breguet: “Eles fabricam produtos confiáveis e precisos, com um design esplêndido que dão uma boa imagem da Suíça. Görgün Selim é franco: “Antes de começar minha aprendizagem, não me importava muito com o que havia dentro dos relógios. Só me interessavam a estética e o luxo.”

Cultura relojoeira

Outra geração, outros valores. Isabelle Musitelli não se importa de associar os produtos que ela fabrique a estrelas como George Clooney ou Michael Schumacher.
 
Nas fábricas, não existe lugar para blim-blim. Os relojoeiros são mais frequentemente confrontados à simplicidade do que a plumas e paetês. A herança cultural dos Huguenotes franceses desde o século 17 deixou traços nos valares do Jura suíço.
 
“A cultura relojoeira ainda é muito forte nas empresas”, afirma André Mazzarini. “Discreção, sobriedade e rigor são quase tão importantes do que a destreza e as outras aptidões técnicas”. Essa tradição é transmitida através da formação, que praticamente não evoluiu há um século. No primeiro ano de aprendizagem, todos os trabalhos de limar, furar e de torno ainda são feitos à mão.  
 
Mesmo se os futuros relojoeiros provavelmente não terão qualquer dificuldade a entrar no mercado de trabalho, ainda há uma certa prudência. As crises dolorosas dos anos 30 ou 70, que atingiu não somente os relojoeiros e suas competências, mas também como pessoas, baniram o excesso de euforia. “A apreensão não desapareceu totalmente, as pessoas continuam desconfiadas”, sublinha Romain Galeuchet.
 
Por isso não se formam grandes quantidades de relojoeiros nem se diminui as exigências. Jean-Marc Mattey diz que “isso seria suicida porque os chineses já fabricam componentes de excelente qualidade. Para sobreviver, será indispensável manter uma mão de obra altamente qualificada.”
 
Emmanuel Veulle tem a mesma opinião: “A relojoaria mecânica tem um belo futuro pela frente, mas existe um risco real que um crescimento exagerado provoque perda da qualidade.”

Samuel Jaberg, swissinfo.ch
Adaptação: Claudinê Gonçalves