Obama toma posse no Dia de Martin Luther King e pontua questão dos imigrantes

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 21 de janeiro de 2013 as 15:36, por: cdb
Obama e seu vice, Joe Biden, momentos antes do juramento à Constituição dos EUA
Obama e seu vice, Joe Biden, momentos antes do juramento à Constituição dos EUA

Presidente dos EUA, Barack Obama jurou pela segunda vez a sua lealdade à Constituição do país que representa, com a mão direita sobre a Bíblia que pertenceu ao líder dos direitos civis naquela nação Martin Luther King, cuja memória foi reverenciada em todas as cerimônias que antecederam a posse e, em especial, nesta segunda-feira, no ato solene que ocorreu, sem incidentes, nas escadarias do Capitólio. A data coincide com a festividade que anualmente lembra Luther King, e ocorre meio século depois de seu mais famoso discurso, feito em 18 de agosto de 1963 em Washington e no qual o líder disse que tinha um sonho: um futuro sem racismo.

Ainda mais do que em 2009, quando Obama assumiu como primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a questão dos direitos civis e a figura de Martin Luther King estão ainda mais presentes no momento da história em que a nação encontra-se mergulhada na pior crise desde o crack da Bolsa, em 1929. A miséria avança sobre Estados em que, até 2008, a prosperidade era visível.

Obama, ao falar à nação, reforçou a necessidade de um “trabalho duro e constante” e perseverança na condução de seu segundo mandato.

– Por tudo isso, nós nunca abandonamos nosso ceticismo na autoridade central. Nem sucumbimos à ficção de que todos os males da sociedade podem ser curados governo solitário – afirmou, em seu discurso, ao pedir a ajuda de todos os norte-americanos para a sua gestão.

Obama era uma criança de dois anos e vivia no Havaí, sua cidade natal, quando em 1963, nas escadarias do monumento a Abraham Lincoln em Washington, Luther King fez seu histórico discurso, no qual expressou sua esperança de que as pessoas fossem não “julgadas pela cor de sua pele mas pelo seu caráter”. Obama não tinha completado ainda oito anos e frequentava a escola primária na Indonésia quando em 1968 as balas de um atirador branco mataram Martin Luther King em Memphis, no Tennessee, para onde ele tinha ido para apoiar uma greve de lixeiros.

Filho de pai africano e de mulher branca norte-americana, Obama passou uma infância e adolescência longe da turbulência racial nos EUA nos anos 60, e não se enquadra no estereótipo do militante negro, e justamente por isso encarna o sonho de Luther King de um pós-racismo.

– É em função daquela visão esperançosa, da imaginação moral de King que começaram a cair as barreiras e o preconceito racial começou a se enfraquecer. Foram abertas novas oportunidades para toda uma geração – disse Obama em agosto de 2011, quando inaugurou em Washington um monumento em memória do líder dos direitos civis. Obama traz em seu curriculo a graduação como advogado e sua escolha como o primeiro editor negro da tradicional revista Harvard Law Review.

Após um século de segregação, ataques violentos de brancos em bairros de negros, brutalidade policial e linchamentos, as lutas de Luther King e de milhares de ativistas menos conhecidos levaram em 1965 a promulgação de uma Lei de Direito do Voto. Em janeiro de 2009, durante sua primeira cerimônia de posse, diante mais de 1,5 milhão de pessoas e da atenção mundial, Obama falou como presidente de “todos os (norte-)americanos” e enfatizou a igualdade de todas as pessoas.

Em seu discurso de posse, Obama reafirmou os princípios defendidos por Luther King e conclamou os cidadãos a fazer daquele país a “terra da oportunidade para todos os imigrantes”, em uma citação que vai ao encontro das recentes manifestações pelos direitos dos “ilegais”, como são conhecidos aqueles que moram nos EUA sem o Greencard (visto de permanência).

A questão é controversa naquele país, um dos mais conservadores do mundo, onde a esperança gerada pela eleição de Obama, em 2008, e sua reeleição, em 2012, também estimula o crescimento das mais variadas milícias brancas, regionalistas, antigovernamentais, neonazistas e racistas. A posse de Obama, no Dia de Martin Luther King, um feriado nacional estabelecido em 1983, sempre celebrado na terceira segunda-feira do mês de janeiro, data próxima ao aniversário do líder, foi revestida de um simbolismo que reforça a disposição do governante de abordar a questão imigratória dos Estados Unidos.

Martin Luther King Jr. foi um pastor protestante e ativista político americano. Tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos EUA, e no mundo, com uma campanha de não violência e de amor ao próximo. Ele foi a pessoa mais jovem a receber o Prêmio Nobel da Paz em 1964, pouco antes de seu assassinato. King, que nasceu em 15 de janeiro de 1929, foi morto aos 39 anos. Como pastor em Montgomery, Alabama, liderou o boicote aos ônibus para protestar contra a segregação no transporte público, que ajudou a lançar um grande movimento por direitos civis.

Assista ao histórico discurso de Martin Luther King

Tradução

Eu lhes digo hoje, meus amigos, apesar das dificuldades que enfrentamos hoje e amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho enraizado no sonho (norte-)americano.

Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e dará testemunho do verdadeiro significado do seu credo; nós conservamos estas verdades para que fique autoevidente: Que todos os homens foram criados iguais.

Eu tenho um sonho, que um dia sobre as colinas vermelhas da Geórgia os antigos donos de escravos serão capazes de se assentarem juntos à mesa da irmandade.

Eu tenho um sonho que um dia, mesmo o estado do Mississipi, sufocado pelo calor da injustiça, sufocado com o calor da opressão, será transformado em um oásis da liberdade e da justiça.

Eu tenho um sonho: Que um dia esta nação se porá de pé e viverá o verdadeiro significado de sua crença: Nós conservamos esta verdade para ser auto-declarada, que todos os homens foram criados iguais.

Eu tenho um sonho, e nele, meus quatro filhos pequenos viverão em uma nação em que não serão julgados pela cor de suas peles, mas pelo conteúdo de seus caráteres.”

Eu tenho um sonho que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação onde eles não serão julgados pela cor da sua pele mas pela conteúdo de seus caráteres.

Eu tenho um sonho hoje.

Eu tenho um sonho que um dia lá embaixo no Alabama com seus vícios racistas, com seu governador tendo em seus lábios palavras de interposição e nulificação, um dia bem ali no Alabama, os garotinhos negros e menininhas negras serão capazes de andar de mãos dadas com os garotinhos brancos e menininhas brancas, como irmãs e irmãos.

Eu tenho este sonho hoje.

Esta esperança é nossa esperança. É com esta fé que eu me volto para o Sul. É com esta fé que nós seremos capazes de transformar a montanha do desespero em uma pedra de esperança. Com esta fé nós seremos capazes de trabalhar juntos, lutar juntos, para juntos ficarmos de pé pela liberdade, sabendo que um dia, nós seremos livres”

“Deixe a liberdade ressoar. Nos cumes das colinas prodigiosas do Novo Hampshire, deixe a liberdade ressoar. Nas montanhas poderosas de Nova York, deixe a liberdade ressoar. Nas elevações dos Alleghenies da Pensilvânia, deixe a liberdade ressoar. Mas não só isto; deixe a liberdade ressoar no Monte Stone da Geórgia. Deixe a liberdade ressoar em cada colina e até nos montículos de terra das toupeiras do Mississippi.

E quando isto acontecer, quando nós a deixarmos ressoar, vamos nos apressar para aquele dia quando nós, todos os filhos de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e pagãos, Protestantes e Católicos, seremos capazes de nos dar as mãos e cantar as palavras do velho Negro Espiritual:

“Livre por fim, livre por fim

Graças ao Poderoso Deus

Por fim, livre eu estou.”