O Santo Guerreiro e o Dragão da Maldade

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 6 de agosto de 2002 as 01:10, por: cdb

Quando Ciro Gomes, candidato da Frente Trabalhista à Presidência da República, classificou José Serra, do PSDB, de “Dragão da Maldade”, acusando-o de fabricar relatórios sobre a idoneidade do ex-presidente da Força Sindical, Paulo de Oliveira, o Paulinho, candidato a vice na chapa de Ciro, ocorreu-me que o Brasil está mesmo precisando fazer uma reflexão sobre o seu momento eleitoral. Não que se parta, aqui, do pressuposto que existe um dragão pronto para ser abatido pelo Santo Guerreiro, como no filme de Glauber Rocha, mas que a miséria – esta sim -, precisa encontrar um final o quanto antes, juntamente com a desfaçatez e a hipocrisia que, infelizmente, ainda insistem na permanência de algumas práticas inadmissíveis hoje em dia.
Vejamos se é possível, então, que no Centro do Rio de Janeiro, em pleno Largo da Carioca, por onde milhares de cidadãos transitam diariamente, menores cheirem cola ou adultos fumem maconha, desbragadamente, em plena luz do dia. Não. Não é possível. Mas acontece. Todo santo dia acontece isso e, de uma hora para outra, a Imprensa descobre este hábito, uma constante naquela parte da cidade. Pronto. Lá se vai o agente do governo, acompanhado de alguns policiais, tentar impor com a força algo que a educação ou o sistema econômico-social em vigor no país não conseguiram alterar ao longo de décadas, séculos. O resultado, obviamente, é o pior possível. Marmanjos correm para um lado e crianças para outro, com os homens fardados correndo atrás, até que conseguem pegar alguns menores e leva-los a um abrigo improvisado, de onde, é claro, eles fogem o mais rápido possível.
Vê-se, então, neste quadro, o quão cínica é a situação em que se vive nesta etapa da civilização. Mas é bom que se registre, embora não sirva de consolo ou panacéia, que essa mania de descobrir a pólvora é uma constante em qualquer parte do mundo. Em alguns lugares com menos freqüência do que em outros, mas há sempre autoridades fazendo vista grossa para infrações que, uma vez descobertas, passam a ser perseguidas durante algum tempo, até que a mídia se esqueça do assunto e siga seu curso, rumo ao nada, deixando para trás – para o alívio geral dos infratores de plantão – aquele tema específico. Bom que se registre, ainda, que os temas são recorrentes nas pautas dos veículos de comunicação, portanto, não se espante, caro leitor, se daqui a algum tempo ver de novo alguns guardinhas correndo atrás de menores cheiradores de cola e adultos maconheiros, em pleno Centro da cidade.
Exemplos mais graves, porém, aguardam a sociedade brasileira, na encruzilhada democrática que se aproxima. Em 6 de outubro, o eleitor será convocado a definir que rumo deverá o Brasil seguir após esta data. O período atual permite ao público conhecer os candidatos e os caminhos que apontam, os mais diferentes. Uns sugerem-se mais espalhafatosos, outros nem tanto, uns soturnos, outros demagogos, mas são as opções que se apresentam e, dentre eles surgirá aquele que irá governar esta nação de 170 milhões de brasileiros à beira de um ataque de nervos.
Resta saber se o escolhido será o dragão da maldade disfarçado de santo guerreiro ou se o país evoluiu o suficiente para reconhecer quem é um e quem é outro, independentemente da pele em que estiver encarnado. Ou, ainda, se o brasileiro simples, se o povo, enfim, já aprendeu que não existe bem que sempre dure ou mal que nunca se acabe; além do que a realidade não vive nos extremos, como sugere este enfrentamento entre o céu e o inferno, mas nas várias nuanças de tons pastéis que, no conjunto, formam a gama de problemas sociais que o Brasil precisa enfrentar, sem medo de fantasmas ou de qualquer outro monstro malvado que o folclore político nacional seja capaz de criar.