O Rio e a violência urbana

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Publicado domingo, 24 de maio de 2015 as 19:12, por: cdb
Como Moreira Franco prometeu acabar com a violência no Rio em seis meses...
Como Moreira Franco prometeu acabar com a violência no Rio em seis meses…

Quando o Rio de Janeiro e todo Brasil seguem sob o impacto do assassinato do médico Jaime Gold na Lagoa Rodrigo de Freitas, área nobre da cidade considerada Maravilhosa vale uma retrospectiva histórica sobre a violência urbana no Rio de Janeiro, lembrando também que, nos anos 80, um dos governadores do Estado, Moreira Franco, prometeu acabar com a violência em seis meses.

Políticos do gênero Moreira Franco seguem a rotina segundo a qual a violência se combate com a violência do Estado. É uma prática velha que não resolve o problema, muito pelo contrário. Haja vista o quadro atual. Moreira Franco não resolveu absolutamente nada e seguiu seu caminho tortuoso de enganar os incautos. Virou até ministro.

Quando o Governador Leonel Brizola foi eleito pela primeira vez em 1982, assumindo em janeiro de 1983, começou a colocar em prática o programa dos CIEPs. Imaginava-se então que os jovens, assistidos pelo Poder Público teriam perspectivas e a população poderia a longo prazo deixar para trás todo um cenário de violência protagonizado exatamente por contingentes que nunca tiveram a oportunidade de se inserir na sociedade.

Este era o objetivo principal do projeto de Darcy Ribeiro & Brizola. O projeto dos CIEPs seria uma forma concreta de enfrentar o problema da violência urbana envolvendo menores.

Lamentavelmente, o tempo apresentado é condicional. É fácil de explicar. Em seguida ao governo Brizola surgiram Moreira Franco e Marcelo Alencar. O projeto original dos CIEPs foi abandonado. Moreira Franco, exemplo concreto também de político medíocre, preferiu apelar para a pirotecnia com a promessa irresponsável de por fim a violência em seis meses. Deu no que deu.

No segundo governo Brizola-Nilo Batista, no início dos anos 90, novamente foi retomado o projeto dos CIEPs, para em seguida perder força. Depois vieram Marcelo Alencar, Garotinho e Rosinha, que na prática enfraqueceram o projeto. Aí vieram Sérgio Cabral e agora Pezão para entornar o caldo da mediocridade.

Foram anos de perda da possibilidade de enfrentar concretamente a violência urbana envolvendo adolescentes.

Além do combate incessante ao projeto por parte da mídia hegemônica, leia-se Organizações Globo, políticos de esquerda, que faziam o gênero da esquerda que a direita gosta, ao combaterem Brizola chegaram a dizer que “escola não é restaurante” e outras baboseiras elitistas. Na prática fizeram coro com a elite abrigada na mídia conservadora.

Nos dias de hoje, quando a cidade do Rio de Janeiro assiste a falência do esquema de segurança do Estado e com promessas do medíocre governador Pezão, poucos lembram que nestes anos todos o Estado tinha uma forma de enfrentar a grave situação, através dos CIEPs, que permitiria que os jovens de então seguissem novos caminhos com oportunidades de se inserir na sociedade.

Se desse certo e o projeto de Darcy Ribeiro não fosse desviado do seu objetivo inicial, provavelmente muitos dos delinquentes de hoje não teriam seguido esse caminho. Pelo menos grande parte deles poderia ter se inserido no mercado de trabalho e não seguiria o caminho da violência.

Mas o esquema atual do senso comum não se recorda que em algum momento houve a oportunidade de se mudar o quadro. O tempo passou, além do aumento da delinquência, novas gerações de excluídos foram aparecendo até em maior quantidade.

O senso comum hoje acha que para enfrentar a situação é necessário reduzir a maioridade penal para 16 anos. Hoje, os defensores desse absurdo falam em 16, mas amanhã e depois poderão pedir redução para 14, 12 anos e assim sucessivamente.

Políticos como Moreira Franco, Pezão, Eduardo Paes e outros em outras áreas deveriam ser cobrados pelo que dizem e pelo que não fazem. E pelo que impedem de mudar o quadro da violência urbana.

Para variar em matéria de elitismo, o jornal O Globo, um dos responsáveis pela desarticulação do projeto dos CIEPs com suas críticas descabidas, nos últimos dias tem feito matérias manipuladas relacionadas com as moradias nas áreas pobres da cidade.

Em um editorial intitulado “favelização inviabiliza planejamento urbano”, O Globo voltou a atacar, como tem feito ao longo dos anos e de forma doentia, o falecido Governador Leonel Brizola como um dos responsáveis pelo que o jornal considera “desordem que assola o Rio há mais de 30 anos”.

Uma semana antes da morte de Brizola, o atual diretor geral de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, culpava Brizola pela violência no Rio de Janeiro.

Para variar, hoje o jornal ainda acusa Brizola de populismo, porque em sua gestão autorizou “o uso pelos moradores da Vila Autódromo, erguida em terreno público em Jacarepaguá”. Ou seja, O Globo não se conforma com o fato de gente pobre ter conseguido um local para morar em detrimento dos abutres da especulação imobiliária.

O Globo prefere que a Vila Autódromo seja local disponível para a especulação imobiliária omitindo o fato de os moradores terem construído moradias e benfeitorias, transformando o local em um bairro habitável.

Em suma, o jornal mais vendido do Rio de Janeiro sempre esteve ao lado da especulação imobiliária. Foi assim na época da ditadura, quando o grupo Sérgio Dourado e outros faziam e aconteciam com o beneplácito do Poder  Público.

O combate aos CIEPs e também aos moradores da Vila Autódromo faz parte do DNA das Organizações Globo. Sempre contra o povo e em defesa dos interesses de grupos econômicos poderosos.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançado no Rio de Janeiro.

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