O rato que roeu a roupa do rei de Roma

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Publicado sexta-feira, 29 de julho de 2016 as 10:40, por: cdb

O Brasil projetou mundialmente, nos últimos 10 anos, a imagem de um país soberano, adepto e criador de políticas sociais inovadoras. O avanço, no entanto, foi barrado por um rato, bastante conhecido, jamais combatido pelos governos Lula e Dilma: a imprensa.

Michel Temer
Michel Temer

É oportuno recordar que o governo federal sempre colaborou financeiramente com ela, destinando-lhe parte da verba publicitária, dividida com outros veículos da mídia alternativa. Talvez por esse motivo, deixou as rédeas da imprensa soltas, como se fosse um animal adestrado. Que nunca foi. Agora a imprensa é a grande aliada do golpismo.

Talvez a massa da população ainda discorde (da ideia de golpe), nessa massa incluo os “intelectuais” que nunca procuraram saber o que é consciência política (andam por aí, com diplomas e sem trabalho, vendendo o que sobrou dos bens familiares, inclusive — como se lhes pertencesse e a alguém interessasse — a própria consciência, flagrantemente em crise).

Ainda assim, o enfado dessa gente foi perturbado pela notícia de fraude em pesquisa recente do Datafolha, que manipulou dados para cunhar uma manchete sensacionalista: “mais de 60% dos brasileiros querem a permanência de Michel Temer na presidência”. O desmentido e o escândalo vieram com ajuda de um jornalista norte-americano, como se não tivéssemos jornalistas aqui, aos montes, capazes de denunciar a farsa. Temos, sim, mas o impacto de uma mídia estrangeira no papel de justiceira é sempre maior e mais convincente.

O susto no enfado do leitor da Folha (e leitores/espectadores de similares), no entanto, não durou tanto quanto o susto da imprensa internacional e do próprio jornalista norte-americano que esclareceu a farsa.

Durante horas e horas, a emissora de TV noticiou que a crise econômica atual é a pior que o país já viveu.

Os comentaristas de plantão incitaram (com outras palavras): “por favor, peguem um empréstimo – de preferência nas novas empresas de crédito online, triunfantes desde 2012, que estamos divulgando aqui em nosso próximo programa – e quitem imediatamente saldos devedores do cheque especial e do cartão de crédito.”

Para aterrorizar ainda mais, veicularam imagens de dois ministros interinos, Eliseu Padilha e Henrique Meirelles, falando de mudanças (abruptas) na Previdência e de aumento (inevitável) de impostos (em 2017).

Para os desempregados, a Globo News deu uma “boa” noticia: “o status do freelancer cresceu no mercado”. Foi o que disse uma consultora que, sem querer, deixou escapar quase como um sussurro, ao final da “bela” entrevista na qual explica o que é contrato temporário e por empreitada, sazonalidade e mão de obra terceirizada: “só há vagas para freelancers que vendam o produto da empresa”. Ou seja, para profissionais que tenham portefólio de clientes a oferecer.

Que tipo de consultora é essa que a Globo News colocou no ar? A que mercado ela se refere? Em que Brasil (temos muitos países, reconheço) o freelancer ganha status quando há alta no desemprego?

Essa é a narrativa do golpismo, cheia de eufemismo. Visível na explicação do Diretor Executivo da Folha de S. Paulo (voltando à fraude) para a ocultação de dados: eles não eram “jornalisticamente relevantes”.

O que esse tipo de explicação significa?

Significa que está faltando concreto na laje. Ou “pensamento lógico na cabeça”, para usar de eufemismo. Eufemismo que o poeta e rapper Renan Inquérito deixou de lado quando escreveu seu mais recente livro “Poesia pra encher a laje”.

Bom seria que todos os que não enxergam o golpe lessem o novo livro de Renan, para, apenas, começar a debater o tema.

À falta de poesia, porque sou jornalista, vou de narrativa devidamente concretada.

Em novembro de 1988, eu era uma estagiária freelancer na TV Globo; as eleições municipais estavam em curso no país inteiro.

São Paulo, capital, já tinha um prefeito eleito, segundo os maiores institutos de pesquisa: Paulo Maluf, com a grande maioria dos votos (não me lembro da exata porcentagem), seguido pela candidata Luiza Erundina, do PT (sem chance, já que tinha cerca de metade dos votos de Maluf).

Ninguém questionou os resultados prévios, afinal, o Maluf sempre foi político preferencial na capital paulista, a ponto de os cariocas chamarem, brincando, os paulistas que moravam no Rio de Janeiro de “Maluf” (Um amigo meu paulistano, nessa situação, foi que me contou a “fofoca”).

Às vésperas das eleições, a turma do jornalismo da TV Globo preparou, por mera formalidade, dois vídeos, um do Maluf e outro da Erundina. Apenas a trajetória do vencedor iria ao ar, por isso o vídeo da Erundina (candidata do coração, para a maioria dos jornalistas) mereceu um carinho maior da produção.

A bomba da “virada” caiu na redação cerca de 15 dias antes do pleito eleitoral: Luiza Erundina havia “encostado” em Maluf, segundo pesquisas. Subiu muito. Subiu tanto a ponto de vencer as eleições, tornou-se a primeira mulher – nordestina, para indignação ainda maior dos seus opositores — a governar a capital paulista, maior cidade da América Latina.

Não sei como a população interpretou a reviravolta, mas os jornalistas, especialmente os que estavam acompanhando o dia a dia, imaginavam que a ascensão da Erundina já havia ocorrido há mais de 15 dias. Fora silenciada porque, só assim, o Maluf poderia manter a dianteira com “larga vantagem” e, quem sabe, ganharia voto útil suficiente para vencer a disputa.

Naquele tempo, o Maluf já era reconhecido como corrupto (ele havia presenteado cada jogador da seleção de futebol na Copa de 1970 com um Fusca, usando o dinheiro público na compra). O seu perfil atendia perfeitamente à ética do poder: “rouba, mas faz”.

Esse tipo de ética foi sendo, aos poucos, desmontada com a vitória, nas urnas, de azarões como Erundina. A imprensa não ajudou nas vitórias. A população é que se mobilizou, faminta por democracia, e passou a se articular com políticos visionários (não eram santos, não há santos na terra, muito menos na política) em busca de justiça social.

A corrupção já vinha e continuou vindo, seguindo com todos. O mérito da Dilma (outra mulher e gaúcha) foi permitir que o ato (e a palavra, sem eufemismo) inundasse as manchetes de jornal.

Eufemismo

Temos corrupção, sim, mas esse não é o fundamento da luta. A nova luta tem que ser pela manutenção do estado democrático que permitiu a ampla denúncia da corrupção.

Infelizmente, a amplidão da denúncia não está sendo tão amplamente contemplada na prática que eleva e mantém corruptos notórios no poder.

Talvez o descompasso deva-se ao fato de que esses corruptos não são “politicamente relevantes” – parafraseando aqui o eloquente diretor da Folha –, não a ponto de serem destituídos e punidos.

Há outros, na opinião pública comandada pela imprensa, que merecem punição mais severa do que o delito.

Queridos leitores que me acompanharam até aqui, a ditadura existiu, não como eufemismo. O que nunca será. Despertemos e delatemos, como o nosso amigo norte-americano, Glenn Greenwald. Interceptemos já a operação Golpe! Fora Temer!

Christiane de Brito, é Jornalista e escritora.