O rabo preso de Eduardo Cunha

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Publicado quinta-feira, 26 de março de 2015 as 18:20, por: cdb
Eduardo Cunha quer uma lei antiterrorismo a pretexto de lutar contra os islamitas
Eduardo Cunha quer uma lei antiterrorismo a pretexto de lutar contra os islamitas

O presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha prometeu apressar a pauta de um projeto sobre a lei antiterror. Ele aproveitou o embalo de uma informação divulgada pelo jornal Estado de S. Paulo sobre supostas tentativas de aliciamento de jovens brasileiros para servir ao Estado Islâmico (EI).

A matéria do Estadão se baseava em conjecturas e não indicava propriamente nenhuma confirmação de que esteja acontecendo verdadeiramente. Mas Cunha, que é Cunha, saiu na frente e desencavou o tal projeto que a burguesia brasileira quer que a todo custo vire lei.

Cunha é uma figura nefasta da política brasileira que se caracteriza por defender projetos que indicam retrocesso nos mais diversos campos. O que fez agora simplesmente confirma isso.

De tanto ascender, Eduardo Cunha ganhou maior espaço na revista Veja que o considera uma espécie de maioral da política brasileira.

Na verdade, o surgimento na pauta jornalística do Estado Islâmico, apenas por conjecturas de serviços de inteligência, está servindo de pretexto para tentar decretar uma legislação objetivando de fato atingir os movimentos sociais.

Cunha e seus seguidores querem mesmo que o Estado brasileiro reprima protestos. O EI não passa de uma criação prática de serviços secretos ocidentais, como tinha sido Bin Laden, aliadíssimo dos Estados Unidos para combater os soviéticos no Afeganistão.

Agora, no Brasil, da mesma forma que no Oriente Médio, os terroristas do EI servem de pretexto para retrocessos. No caso do Oriente Médio, a ação terrorista ajuda aos industriais da morte a desaguarem armamentos, enquanto que no Brasil o surgimento do grupo nas páginas do Estadão ajuda a empreender repressão aos movimentos sociais que defendem os interesses da sociedade civil.

Mas já que estamos em Eduardo Cunha, nada melhor do que colocar em pauta o dizer consagrado no cancioneiro popular “Recordar é viver” para conhecer melhor com quem estamos lidando.

Para os desmemoriados, vale lembrar como surgiu na política o poderoso da Veja Eduardo Cunha, hoje o segundo na ordem de sucessão presidencial.

Cunha em 1991 foi indicado pelo de triste memória PC Faria, o “tesoureiro” de Fernando Collor de Mello, para a presidência da Telerj, onde permaneceu dois anos até o fim da era daquele “caçador de marajás”.

Cunha integrava então o partido de Collor de Mello, PRN (Partido da Reconstrução Nacional), chegando ao posto de conselheiro político da agremiação de aluguel, dirigida então por um tal de Daniel Tourinho, hoje ocupando a presidência do PTC (Partido Trabalhista  Cristão), figura que por sinal voltou às páginas ao ser divulgada lista de políticos com contas no HSBC da Suíça.

Depois do “estágio” na Telerj, Cunha tornou-se não muito tempo depois presidente da Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (Cehab) durante o governo Garotinho. Ficou pouco tempo.

Em seis meses, Cunha teve de renunciar, acusado de beneficiar a empresa de um ex-auxiliar do então ex-presidente. Ele conseguiu se safar porque o processo a que passou a responder se extinguiu por decurso de prazo.

Cunha anda dizendo que já respondeu outros processos, mas foi considerado inocente das acusações.

Como no Brasil o que aconteceu ontem já é apagado hoje, Cunha vai ocupando espaços midiáticos e tenta de alguma forma ser em algum momento indicado para concorrer à Presidência da República. Aí seria o absurdo dos absurdos, mas como tudo é possível neste mundo político menor, todo cuidado é pouco.

Pensar que este político ocupa um cargo tão relevante como o atual é realmente um retrato sem retoques sobre o momento atual da política brasileira.

Cunha foi indiciado pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot como um dos envolvidos na Operação Lava-Jato. Está sendo investigação, não podendo por enquanto ser considerado culpado.

Mas o que impressiona é o fato de Cunha antes de qualquer coisa ser desagravado por políticos que o consideram de primeira grandeza e antes de mais nada um cidadão acima de qualquer suspeita. Pode-se imaginar quem sejam eles.

Para se ter uma ideia, como se não bastasse ter sido paparicado ao comparecer na CPI sobre a Petrobras, Cunha agora vai ser homenageado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) por decisão de correligionários do PMDB, o partido majoritário naquela Casa. A iniciativa foi do deputado estadual Jorge Picciani, do mesmo time de Cunha.

Não é à toa que Cid Gomes saiu por cima do Ministério da Educação e ganhou projeção nas redes sociais ao enfrentar na base do olho no olho o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Este alerta sobre Eduardo Cunha vale também para os que andam defendendo a renúncia ou o impeachment de Dilma Rousseff. Pensem bem, já imaginaram Eduardo Cunha o primeiro na ordem da sucessão presidencial? É realmente muito risco para a jovem democracia brasileira.

Se o governo não anda bem com Dilma Rousseff, como entendem alguns, sem ela a Presidência ficaria ainda pior, podem crer. Assumiria, se assumisse, o peemedebista Temer. E se por algum motivo ele não ocupasse o cargo, os destinos do Brasil ficariam nas mãos (limpas?) de Eduardo Cunha.

Nesta história sombria quem mais perderia seriam mesmos os trabalhadores brasileiros.

Sobre Michel Temer, nos bastidores políticos conta-se que quando foi criado o PSDB, uma costela do PMDB, Temer estava prestes a aderir à nova sigla política. Mas aí, Franco Montoro o aconselhou a permanecer no PMDB sob o pretexto de que “lá você vai ser um dos nossos”.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , será lançado dia 17, no Rio de Janeiro.

Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas colunistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins.