O que isso tem a ver com a Evangelização?

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Publicado segunda-feira, 29 de agosto de 2011 as 10:36, por: cdb

Tenhoaqui sobre a minha mesa de trabalho um cartaz da festa de padroeira de uma paróquiado Distrito Federal. Sabe-se que é festa de igreja pela manchete e porque nelehá a imagem da padroeira. Do contrário seria impossível saber. De fato, ocartaz não fala de nenhum momento evangelizador, de nenhuma celebraçãolitúrgica, mas convida o público para uma grande farra regada com muita bebidae muito barulho de várias bandas de cantores sertanejos. Além do anúncio dafarra, das bandas e dos nomes dos patrocinadores, o cartaz traz a informação dopreço do bilhete para entrar na farra e a indicação dos locais onde ele podeser adquirido. Nada contra a cervejinha, pois também gosto de saboreá-la de vezem quando. Nada contra as bandas sertanejas, embora eu prefira escutar sempre amúsica raiz, tocada por autênticos violeiros caipiras. Mas fiquei meperguntando: o que isso tem a ver com a evangelização?

Chegoem casa, depois de um dia de trabalho, e ligo a TV. Começo a mexer nos canais,tentando encontrar alguma coisa pra ver. Deparo-me com um programa católico deTV. O programa se diz voltando para a evangelização do público jovem, mas temtudo para ser um programa humorístico. De fato, alguns jovens, com cara de quemcomeu e não gostou, fazem algumas perguntas e um padre com rosto angelical, dequem não tem sexo, responde às perguntas. Lá pelas tantas, um desses jovens,com cara de mais esperto, pergunta onde encontrar na Bíblia a prova de que nãose pode fazer sexo antes do casamento. O padre começa dizendo que, com osjovens, é preciso falar claro e vai direto ao ponto: “No livro do Gênesis, naprimeira página da Bíblia, pois lá está escrito: ‘por isso o homem deixa seupai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles dois se tornam uma só carne’”.Gostei do programa “humorista”, pois dei uma boa gargalhada. Mas depois fiqueisério e me perguntei: isso é evangelização?

Continueia mexer nos canais e, de repente numa outra TV católica estava acontecendo umdebate sobre o celibato. Respondia um padre solenemente empacotado pelas vestesclericais. De repente o apresentador faz uma “provocação” ao entrevistado: “opadre não casa, não tem mulher, não tem filhos. No final do dia, depois quetodo mundo vai embora da igreja, ele não sente solidão?” O padre entrevistado,com ares de quem pensa que todo mundo é bobo, responde com uma grande asneira(lembro que asneira vem de “asno”!): “Não, eu não sinto solidão, eu sintosoledade. Soledade é viver com Jesus e quem está com Jesus não está sozinho.Não tem a Nossa Senhora da Soledade? Pois é, eu não sinto solidão, massoledade”. Dei uma baita de uma gargalhada. Sem querer, estava novamenteassistindo a um programa televisivo de humor. Mas, cansado por causa do dia detrabalho, fui pra cama com a pergunta: por acaso isso é evangelização? Porém,antes de dormir, passei pelo meu escritório e pequei um dicionário para ver oque significava a palavra soledade. Estava escrito: “soledade, o mesmo quesolidão”. Dei outra risada bem gostosa. Minha mulher, lá do nosso quarto,escutou e ficou curiosa, querendo saber por que eu estava dando tantas risadasgostosas. Quanto lhe contei os episódios, caímos os dois numa gostosa gargalhada.Mas a pergunta ficou no ar.

Sabemosque o verbo evangelizar (euangelizesthai), e osubstantivo evangelho (euaggelion), desde os temposáureos da antiga Grécia, significam literalmente anúncio de uma boa notícia. Estestermos estão na raiz da palavra evangelização. Em Israel o correspondentehebraico do verbo e do substantivo grego também tem o mesmo significado:anúncio de uma boa e confortante notícia. Os termos eram usados de modoespecial para falar da alegre notícia da salvação e da libertação trazidas porJavé. “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz,que traz a boa notícia, que anuncia a salvação, que diz a Sião ‘Seu Deusreina’” (Is 52,7).

Com achegada de Jesus os termos evangelizar, evangelho e evangelização ganham umaconotação especial. Permanecem significando anúncio de uma boa notícia, masacrescidos de um detalhe importante: boanotícia para os pobres e oprimidos. “O Espírito do Senhor está sobre mim,porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres;enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação davista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”(Lc 4,18-19). É claro que Jesus, citando Isaías, não inventa a evangelização dospobres, mas, segundo Lucas, torna-a programa oficial da sua missão e, deconsequência, da missão dos cristãos e das cristãs.

Desdeo Concílio Vaticano II não se tem feito outra coisa a não ser proclamarsolenemente que a missão da Igreja é evangelizar. Mas, quase cinquenta anosdepois, chego à conclusão de que boa parte da Igreja, senão toda ela, não sabee não quer evangelizar. Os exemplos acima, que podem ser multiplicados aosmilhares, revelam isso com clareza. Onde está a boa notícia para os pobres,para os oprimidos, para os sofridos? Para que servem as festas de padroeiro eos programas televisivos católicos? De que forma os pobres, as vítimas daopressão, os oprimidos estão sendo evangelizados?

Seaquela festa, anunciada pelo cartaz da paróquia, fosse em benefício dos pobres,não restaria dúvida de que seria uma verdadeira festa evangelizadora, mesmo quea base de muita cerveja e de bandas sertanejas. Dois meses atrás, participei deuma festa junina aqui no Distrito Federal, promovida pelos espíritas em favorde uma casa para idosos. Na festa não tinha bebida alcoólica, por uma opção dadireção da instituição, mas tinha todas as outras bebidas e comidas típicas doSão João. O diretor, que também é meu colega de trabalho, me disse que esteabrigo para idosos é mantido pelo trabalho de voluntários, pelas doações daspessoas, por esta festa junina e por outra que é realizada por ocasião doNatal. E quem visita o abrigo sabe como os velhinhos são bem cuidados.

Portanto,não há mais evangelização em nossos dias, exceto em determinadas ocasiões elugares. A Igreja perdeu definitivamente o rumo e não consegue levar boanotícia a ninguém, particularmente aos destinatários escolhidos por Jesus emseu pronunciamento na sinagoga de Nazaré.

O quese vê hoje são verdadeiros espetáculos de puro exibicionismo, voltados para aalimentação da egolatria de certos dirigentes e lideranças. As festasparoquiais estão destinadas ao lucro, a arrecadação de dinheiro para o sustentoda “pastoral de manutenção” e para manter o luxo e a ostentação de certaslideranças, particularmente de padres e bispos que vivem às custas dos pobres,com a desculpa de que estão evangelizando. Poucos dias atrás me encontrei comum grupo de uma determinada paróquia de um bairro pobre do Distrito Federal. Aspessoas se queixavam das constantes viagens do pároco à Terra Santa e Europa,deixando a paróquia no abandono, enquanto continua extorquindo dinheiro do povopobre para custear suas peregrinações.

Temrazão Paulo Suess quando recentemente perguntou: “Quo vadis ecclesia? Para ondevais, Igreja?”. Ele mesmo sugere a resposta: “Estou indo por aí”. E eu,parafraseando o Cardeal Newman, acrescento: “como uma tonta”.