O que há de comum entre as eleições nos EUA e em São Paulo?

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Publicado terça-feira, 5 de outubro de 2004 as 11:56, por: cdb

Um manifesto, liderado por Noam Chomsky, mostra as similaridades entre as eleições nos Estados Unidos e em São Paulo. Tendo apoiado Ralph Nader nas eleições presidenciais de 2000, ele encabeça um movimento de apoio a John Kerry. Mesmo sabendo que um tema fundamental para a esquerda, como a política de guerra dos EUA, provavelmente não apresente diferenças importantes entre os dois candidatos, ainda assim, para ele e os outros signatários do manifesto, Kerry e Bush não são iguais.

O manifesto se vale do critério das políticas sociais – substancialmente diferentes entre os dois – para definir o apoio a Kerry e implicitamente o apelo aos eleitores de Nader para que façam o mesmo. Para a esquerda não existe eqüidistância entre a extrema direita e o centro (ou como se queira chamar, até mesmo de direita moderada aos democratas), e por isso eles não apelam ao voto de protesto, nem ao voto alternativo, quando as políticas sociais, aquelas que afetam à grande maioria, aos setores mais pobres da população, são substancialmente diferentes. Críticas políticas e ideológicas à parte, eles votam pela solidariedade com os mais pobres – idosos, negros, mulheres, jovens marginalizados, chicanos.

Chomsky está acompanhado por atores como Susan Sarandon, Tim Robbins, Peter Coyote, por militantes ligados ao Fórum Social Mundial, como Medea Benjamin, por feministas como Bárbara Ehrenreich, por intelectuais como Norman Solomon, Frances Fox Piven, Saul Landau, David Barsamian, Howard Zinn, Manning Marable – que optam por Kerry diante de suas políticas sociais, criticando a neutralidade e a eqüidistância entre as duas forças que disputam a presidência dos EUA em novembro deste ano.

Em São Paulo – como apontou muito bem Flávio Aguiar em artigo para a Agência Carta Maior, semana passada – a situação não é muito diferente. Um diagnóstico de que não haveria diferenças substanciais entre os dois principais candidatos, que condenariam São Paulo ao mesmo destino, incita à eqüidistância, ao voto nulo, a candidatos alternativos. Principalmente quando se chega ao segundo turno, entre os tucanos e o governo petista em São Paulo, as alternativas se estreitam.

Daria no mesmo ter na cidade de São Paulo as orientações do pregador de autoajuda, o Chalita, secretário tucano de Educação do Estado, ou ter os CEUs? Pode-se ficar eqüidistante entre as políticas sociais de Márcio Pochman e de Aldaísa Sposatti e o risco de se estender à cidade as trogloditas políticas de segurança pública do governo dos tucanos no Estado de São Paulo?

O mesmo dilema se coloca nas eleições dos EUA deste ano e das eleições para a Prefeitura de São Paulo. Aparecerão sempre os que digam que toda comparação falseia as coisas etc. As palavras suportam tudo, principalmente quando se distanciam dos destinos cotidianos da população mais carente, que vive nas últimas periferias da cidade, para quem a brutal realidade social de São Paulo impede que se brinque com as palavras.

O que dizem Chomsky e os que optem pelas políticas sociais existentes em São Paulo é que nem tudo é igual, que nem tudo é cambalacho. A solidariedade com os mais pobres exige definições que pesarão de forma significativa sobre o futuro – humano ou desumano – de São Paulo.