O que está em jogo em Porto Alegre

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Publicado quarta-feira, 8 de setembro de 2004 as 11:18, por: cdb

A disputa eleitoral em Porto Alegre está apresentando um fenômeno interessante para pensar a situação da esquerda, seus impasses teóricos e as estratégias dos setores conservadores do país para tentar reconquistar espaços perdidos nos últimos anos. O fenômeno é o seguinte: os candidatos de oposição ao PT, que governa a cidade há 16 anos, procuram incorporar em seus discursos de campanha dois dos principais símbolos da Administração Popular: o Orçamento Participativo e o Fórum Social Mundial. Com inflexões variadas, todos aparecem como defensores da participação popular e do ideário do FSM. Essa tentativa de apropriação é um elemento fundamental para se entender o que está em disputa nas eleições municipais de Porto Alegre, em um sentido mais profundo.

Afinal de contas, esses candidatos que hoje falam em “manter e aprimorar” o OP e o Fórum participaram ativamente da experiência do governo Fernando Henrique Cardoso, ou seja, navegaram exatamente no sentido contrário do que foi construído em Porto Alegre. Se hoje aparecem como defensores da participação popular, cabe interrogar seriamente, para além do universo pragmático das estratégias eleitorais, o sentido preciso dessa tentativa de apropriação. Um livro de uma ativista social e pesquisadora inglesa pode ajudar a entender o que está em jogo nessa disputa eleitoral. O argumento central é meio longo, mas vale a pena ser percorrido.

A situação da esquerda na virada de século

“Houve momentos em que as esquerdas possuíam idéias mas não tinham base social. Hoje, em muitos casos, elas têm bases sociais mas não possuem idéias para enfrentar o capitalismo triunfante do fim do século”. A reflexão de Marco Aurélio Garcia no prefácio ao livro “Uma resposta ao neoliberalismo – Argumentos para uma nova esquerda”, de Hilary Wainwright (editado no Brasil pela Jorge Zahar) ilustra bem uma das dificuldades centrais enfrentadas pela esquerda mundial neste início de século: a ausência de idéias fortes capazes de enfrentar aquilo que se convencionou chamar de neoliberalismo.

Um neoliberalismo, adverte a pesquisadora do International Center for Labour Studies, da Universidade de Manchester, que tem muitos disfarces, manifestando-se sob formas variadas. Wainwright aponta algumas dessas formas. Na Inglaterra de Margaret Thatcher, foi abraçado “com o fanatismo de uma religião secular”. Na Inglaterra de Tony Blair, aparece recoberto por uma “bricolage da linguagem ética dos valores do socialismo cristão com o jargão ríspido da modernização e da globalização”. E, no Brasil de Fernando Henrique Cardoso, vestiu o “frágil disfarce de social-democracia européia, com uma promessa de ingresso no mundo moderno”.

Ausência de idéias fortes, de uma reflexão teórica mais consistente por parte da esquerda, e presença de um modelo hegemônico capaz de legitimar sua dominação através de disfarces mas ou menos sofisticados: essa é, portanto, em um cenário geral e esquemático, a situação da esquerda mundial na virada de século, da esquerda que continua lutando para a construção de “um outro mundo possível” neste mundo, que, afinal de contas, é o único que existe. E foi neste cenário de penúria teórica e de luta política defensiva que a experiência de Porto Alegre conseguiu alcançar uma dimensão internacional, o que, juntamente com outros fatores, acabou dando origem ao Fórum Social Mundial. Parece haver, portanto, algo de peculiar na experiência de Porto Alegre que merece uma atenção mais detida.

A “neutralidade ideológica” do neoliberalismo

Esse quadro fica ainda mais complexo com a entrada em cena de uma peculiar característica legitimadora do atual modelo hegemônico no mundo: “uma estranha neutralidade ideológica permite ao neoliberalismo encaixar-se nesses diferentes disfarces”, como assinala Wainwright. O que define essa suposta neutralidade ideológica? Entre outras coisas, um discurso onde a “modernização” é apresentada como um c