O que esperar da Rio+20. Um convite à reflexão

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 14 de março de 2012 as 11:22, por: cdb

Algode muito maléfico está a rondar as articulações em torno da Rio+20.

Emnome do Desenvolvimento Sustentável, os países centrais, os mesmos responsáveispela crise mundial sem precedentes, pretendem consolidar o predomínio domercado sobre todos os seres vivos e coisas.

Nãoé a primeira vez que a retórica do discurso consegue encobrir projetos de podernefastos da burguesia capitalista. Aqui mesmo no Brasil, nos anos de 1970,juntou-se a religiosidade do povo com o avanço do capital internacional, dandoforma ao “milagre econômico” -a farsa do boom da economia responsável-,encobrindo o aumento espetacular da dívida externa.

Seisso o senso comum não percebia, menos ainda os outros acontecimentos que sesucederam. Enquanto o povo cantava “todos juntos vamos, pra frente Brasil,Brasil, salve a seleção” (era o ano da Copa do Mundo no México – o Brasil foicampeão), lutadores e lutadoras contra um regime odioso, gritavam e morriam nosporões da ditadura.

Qualquersemelhança com os dias atuais, não é mera coincidência: Copa – Público – Privado,Desenvolvimento Sustentável, Economia Verde. Novos jargões para velhosinteresses, junto com os artifícios do discurso ufanista dificultam, à primeiravista, uma compreensão substantiva do que ainda está encoberto: relações deexploração reais, internas e externas, que agridem nossa consciência.

Tãoimportante quanto a Economia Verde como diretriz estratégica de intervenção esubtração dos bens da natureza por parte do bloco que está no poder, a Rio+20foi preparada para consolidar a hegemonia do capital imperialista, tendo aDívida Externa como instrumento importante para uma rearrumação do poder globale das diferentes categorias de subalternidade.

Osvampiros da crise – os bancos multilaterais, em especial o Banco Mundial (BM),a par dos Fundos criados e incentivados por este, têm aportado, além de maisrecursos, tecnologia do conhecimento, com o fim de garantir que o crescimentoeconômico planejado a partir dali, não sofra mudanças de rota. As grandescorporações, também estimuladas por esse pensamento, buscam lugares aonde lhessejam oferecidas as melhores condições para a obtenção de mais lucros.

Cresceo campo da responsabilidade social e ambiental empresarial e doempreendedorismo, instrumentos que têm contribuído para destituir as pessoas deseus direitos e para abafar a influência dos movimentos sociais na gestão depolíticas públicas e no controle social.

Crescetambém a participação de grupos e de ONGs nos projetos e fundos dasinstituições financeiras. O BM, por exemplo, aumentou de 6% para 50% aparticipação de ONGs em seus projetos relativos à questão climática. Issosignifica uma absorção cada vez maior das demandas das Organizações daSociedade Civil, ajustando-as à sua estratégia de liberalização da economia,rumo ao mercado verde.

Ocaminho do Verde já está decidido; não vamos nos iludir. O próprio SecretárioGeral da Rio+20 já alerta aos países desenvolvidos (aqueles que não vivenciam acrise financeira), que terão de “se empenhar muito mais”.

Naverdade, a economia verde é tratada por esses países como se fora uma AjudaHumanitária, a qual dependerá do acolhimento irrecusável dos países “emdificuldades”, que não poderão “atrasar” a sua efetivação. Esta, não virá paradiscutir processos; e, sim, para cobrar resultados.

Tremoao escutar daquele Secretário que “o desenvolvimento sustentável é o futuro quequeremos”. Futuro sombrio para muitos povos, basta ver a tinta carregada de”econo-verde” que escorre entre os dedos dos produtores intelectuais dasgrandes catástrofes.

Éincrível, mas, o que aconteceu no início da década de 1990 com algumasorganizações do sindicalismo na relação com o Estado brasileiro (participaçãoconsentida, subalternidade na relação e “gosto” pela acumulação de riqueza)volta com toda força; é claro, com novas formas de captura (são convênios,contratos, projetos a fundo perdido, apoio ao empreendedorismo, diálogo direto,sem mediações, valorização do indivíduo…). O Estado, aliado com a mídia,tenta neutralizar com os mais variados artifícios as poucas chamas da insatisfaçãopopular, aquelas que “correm por fora” daqueles movimentos que, mesmo com aforça que conseguiram acumular historicamente, não são capazes de acreditar queé possível quebrar a lógica desumana do modelo de relações sociais, ambientaise de produção e consumo.

Emverdade, o desenvolvimento sustentável, nessa perspectiva, precisa do verdepara se sustentar; mas precisa também de um comando com a eficiência na medida,onde todos os vetores do conhecimento estejam vinculados a um poder central ecentros estratégicos de poder a partir de uma geopolítica afinada, a seu serviço.

Nãoé só o futuro da economia que interessa decidir, daí a relativa importância doFórum de Davos, nesse contexto. Na Rio+20 vai ser decidido -e com o aval demuitas organizações da sociedade civil- o modo de operar da economia e dapolítica, combinando as forças de uma e de outra. Vai-se decidir qual desenhode governo global será capaz de dinamizar as forças de mercado indefinidamentee sem contestações. Qual sistema de proteção jurídico-institucional deverá serimpulsionado nos Estados nacionais para garantir esse governo global.

Aquestão que se coloca como desafio para quem ainda se indigna é:

Oque está sendo proposto para a Cúpula dos Povos (iniciativa dos movimentossociais mundiais, paralela à Conferência oficial) dá conta da necessidadeurgente de se construir coletivamente saídas para a situação em que nosencontramos? Dá conta de nos contrapormos à “Economia Verde Inclusiva”, comoquer a Comissão brasileira na Conferência? Dá conta de mostrar a nossaindignação?

Oque está sendo proposto para a Cúpula dos Povos é, de fato, a agenda aonde seinstaura o conflito?

Absolutamenteconvicta de que estamos todas seguindo para mais uma versão de um Fórum SocialMundial qualquer, reproduzindo-se os mesmos equívocos da construção eoperacionalização destes, quiçá com uma Carta final já pronta, com o mesmo blá,blá, blá…, o convite que faço é para subvertermos essa ordem dada como acorreta e inquestionável.

Cúpulados Povos só tem sentido se, de fato, for construída desde o local, pelaspessoas que sentem diretamente os processos que vão, a passos largos, retirando-lhesos sentidos que organizam suas existências. Ninguém melhor para dizer como erae como deveria ser o desenvolvimento de uma cidade do que as pessoas querespiram o metano e outros metais tóxicos produzidos pelas siderúrgicas,termoelétricas e refinarias; quem bebe a água podre que vem dos rios poluídospela falta de saneamento básico; quem não mais pesca porque os peixes estãomortos ou escassos em função da construção de mega-hidrelétricas; quem corretodo dia o risco de ser vítima de um trânsito caótico, porque mobilidade urbanaé menos prioritária do que um mega aquário; quem se sente acuado, removido edespejado pelos latifúndios improdutivos e por grandes empreendimentos deinfraestrutura nas cidades.

Sãoesses os sujeitos Sem-Cúpula, que precisam ser escutados.

Fortaleza,14 de março de 2012.