O PT, Lula, Dilma, os golpistas e a alternância

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Publicado quarta-feira, 8 de abril de 2015 as 15:00, por: cdb
Nem toda oposição é golpista, contestar, divergir, faz parte da democracia, onde costuma haver alternância no poder
Nem toda oposição é golpista, contestar, divergir, faz parte da democracia, onde costuma haver alternância no poder

Trinta anos depois do fim da ditadura, a democracia brasileira parece não ter chegado ainda à maturidade. A palavra alternância no poder, integrada nas velhas democracias europeias, continua provocando problemas de digestão. Não sou político, tenho o defeito dos jornalistas independentes e suas manias de objetividade (mal vistos pelo que depreendo de muitos blogs), e é nessa condição que corro o risco de meter a mão nesse vespeiro atual.

Dentro de alguns dias, haverá novas manifestações contra o governo, porém quem manifestar corre o risco de ser considerado golpista e ser até assimilado aos militares da ditadura militar. Em junho de 2013, quando começaram manifestações contra o governo, ainda havia muita gente de esquerda defendendo o direito de se colocar em questão as sobrefaturações dos estádios de futebol. E dizia-se que o movimento “Não vai ter Copa” era manipulado pelo partido Psol.

Tentando acalmar a torcida dos contras, nossa presidente pronunciou, naquela época, algumas palavras que envolviam a promessa de um referendo, uma reforma política e outras possibilidades de mudanças inclusive constitucionais.

Não sei se tais palavras eram mágicas, mas surtiram efeito e como ninguém mais saiu às ruas para protestar, as promessas de mudanças ou de se fazer alguma coisa, não me lembro o que exatamente, foram esquecidas. Porém algumas pessoas mais ousadas foram presas, tomaram processo, estão foragidas ou ficaram com a ficha de antecedentes marcada.

Em março, depois das eleições que garantiram a reeleição da presidente, houve dois apelos para manifestações: um do PT em favor do governo e outro da oposição contra o governo. A manifestação do dia 12 foi fraca, para não dizer um fracasso, e a do dia 15 encheu as ruas. Aqui no Exterior, a mídia em geral noticiou existir um descontentamento popular no Brasil. Uma situação muito parecida com a da França, onde metade da população é de centro e esquerda e a outra metade de direita e extrema-direita.

Novas manifestações contra o governo estão marcadas para o domingo e nelas muitos pedem a saída de Dilma (na França também existem os que querem a saída de François Hollande e de seu primeiro-ministro Manuel Valls) e uma minoria de nostálgicos ou ignorantes quer a volta dos ditadores militares.

Ora, no Brasil os blogs e as redes sociais petistas decidiram reconhecer, na oposição a Dilma, apenas a extrema minoria dos nostálgicos da ditadura e, por redundância, as manifestações e os manifestantes do próximo domingo são chamados de “golpistas”. Para mim, essa manipulação maniqueísta, pela qual se considera golpista quem não beija s mão de Dilma, se torna perigosa por acenar para o extremismo e provocar uma polarização que, na verdade, não existe no momento.

Essa tendência para a radicalização tinha se manifestado durante a campanha eleitoral, na qual quem não fosse eleitor de Dilma era reacionário, entreguista, neoliberal ou golpista e merecia mesmo alguns palavrões. Disso não escapou nem a própria candidata Marina, que apesar de sua origem petista e, portanto da mesma família de esquerda, foi considerada traidora e um de seus pecados mais aviltantes era o de querer um Banco Central independente e ter como aliada a filha de um banqueiro.

Ninguém se lembrou de que o ex-presidente Lula tinha na sua equipe como ministro importante o ex-banqueiro Henrique Meirelles, favorável à independência do Banco Central, e nem poderia imaginar que Dilma, mal eleita, contratasse um verdadeiro banqueiro do Bradesco para comandar as finanças do país.

Liquidada Marina, de linguagem transparente e capaz de reajustar seu programa para não mentir, restaram as duas candidaturas que, na verdade, na época não se sabia, eram uma só na sua essência, quase como os democratas e republicanos nos EUA. A prova: Dilma não tinha programa mas se elegeu em cima do programa petista, porém para governar recorreu aos chamados ajustes fiscais e mexeu no que considerava intocável, os direitos trabalhista e previdenciários. Sem se falar na defesa do agronegócio, no desconhecimento das populações indígenas e do desenvolvimento sustentável e no prosseguimento do desmatamento da Amazonia. O candidato tucano não teria feito melhor!

Ao mesmo tempo, se confirmavam as suspeitas das investigações da Polícia Federal na Operação Lava Jato, revelando o maior volume de corrupção da nossa República, penalizando e vampirizando a maior empresa brasileira – a Petrobras. Em outras palavras, se amanhã a Petrobras tiver de voltar ao regime de concessão dos nossos poços de petróleo e perder o monopólio do petróleo, não terá sido por obra dos tucanos ou dos EUA, mas por obra e graça do governo petista. Incrível, inacreditável, mas absolutamente verdadeiro, embora os blogs e as redes sociais petistas continuem negando o óbvio e culpando o juiz detonador da Operação Lava Jato.

Daqui de fora e como jornalista, de formação de esquerda, me parece estar sendo encenada no Brasil uma peça de Ionesco num teatro do absurdo: uma presidente se elegeu na base da mentira, escondendo a má situação econômica do país e tão logo foi empossada adotou o programa dos adversários.

Por culpa da corrupção nos partidos do governo, a chamada base aliada, está em perigo o lema nacionalista “o petróleo é nosso”, mas é o principal partido dessa base, o PT, quem convocou o povo para sair nas ruas defender a Petrobras. Embora esteja mais que provada a corrupção na Petrobras, esse mesmo partido do governo continua negando ter cometido corrupção (com seus fiéis devotos acreditando) e chama de golpistas os jornais que noticiam as prisões dentro da Operação Lava Jato. A situação é esquizofrênica: a esquerda que, em princípio luta pela liberdade de expressão, estaria contrária à divulgação pela mídia da corrupção na Petrobras.

Os eleitores enganados querem ir ás ruas protestar e são chamados de golpistas. Para evitar que a mídia continue a publicar o desenrolar do processo da corrupção na Petrobras, os chamados defensores da democracia, entre eles alguns que lutaram contra a ditadura militar, querem uma mudança nas leis que regulam a imprensa e a televisão.

É o caos total que se torna ainda mais difícil de se entender, quando a presidente repreende seus mais excitados apoiadores e faz uma defesa total da liberdade de imprensa, nos moldes dos países ocidentais. E é verdade, foi sua amiga e ministra Helena Chagas quem garantiu maiores subvenções ao grupo Globo, o mesmo agora acusado de incentivar o movimento pelo impeachment.

Do 15 de março para cá, a idéia do impeachment já não parece mais interessar nem os tucanos. A presidente que, no primeiro mandato, não aceitava palpites decidiu ficar humilde, aceitar os rumos ditados por seu ministro Joaquim Levy e evitar irritar o presidente da Câmara Como também não parece disposta a renunciar, tudo leva a crer numa continuação do seu mandato até fins de 2017, mesmo porque para isso foi reeleita.

Entretanto, com uma presidente sem credibilidade, sem condições para governar, sem grandes projetos para os próximos quase quatro anos, isso debilitará o PT submetido à hemorragia do descrédito, cujo resultado poderá ser o não favoritismo de Lula para suceder a Dilma.

Na verdade, Lula deixou passar o trem duas vezes e talvez não haja uma terceira vez. A primeira foi, e nisso houve muita correção de sua parte, quando no apogeu da popularidade se negou a reformar a Constituição para ter um terceiro mandato, negando-se a fazer como Chavez e Castro; a segunda, e esta ninguém entendeu (eu mesmo esperava sua candidatura), foi a de se negar a se candidatar ao término do mandato de Dilma.

Foi problema de saúde ou pressão do PT?

A vitória de Lula teria permitido consertar sem confusões os estragos feitos por Dilma e, provavelmente o esperto Lula, saberia como driblar o escândalo da Petrobras. O próprio PT escaparia da atual implosão. Quem teria impedido Lula de se candidatar no lugar de Dilma, o Rui Falcão, presidente do PT, como alguns dizem? Seja quem foi, foi uma decisão temerária.

Rui Martins, jornalista, escritor, começou no Estadão logo depois de formado em Direito pela USP. Militando contra a censura e contra a ditadura, organizou o Encontro com a Liberdade, se exilando a seguir na França. Colaborou com as rádios internacionais Deutsche Welle, Nederland e Suíça. Com o fim da ditadura, retornou ao Estadão como correspondente, graças ao editor Luiz Fernando Emediato, acumulando com a antiga Rádio Excelsior, depois CBN. Publicou com a Geração Editorial, o sempre atual Dinheiro Sujo da Corrupção. Em 66, tinha publicado A Rebelião Romântica da Jovem Guarda. É correspondente do Expresso de Lisboa, Deutsche Welle, RFI e  Correio do Brasil, em Genebra, na Suíça.

Direto da Redação, é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.