O passeio eleitoral da candidata de Lula

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Publicado quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 as 20:02, por: cdb

A campanha eleitoral de 2010 já está nas ruas. Pelo menos a presidencial, mais atraente do que as dos governos estaduais e as legislativas – para deputados e senadores. Claro que o processo demanda articulações, combinações partidárias, acordos de correntes e de grupos oligárquicos. Em dois ou três meses o quadro todo estará definido, embora já se tenha um panorama bem próximo do que vai acontecer. Salvo, é claro, que apareça alguma zebra, o que tem sido cada vez mais raro no esquemático jogo de forças da política brasileira.

Tudo indica que a candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, vai levar de goleada, vai dar um passeio tranquilo e sem maiores surpresas. Não há nada que indique sobressaltos. Afinal, ela é ministra de um governo aprovado pela grande maioria, que vai de gregos a troianos, e foi indicada por um presidente que é quase unanimidade nacional e internacional. Ele não é “o cara”? Portanto, não há maiores resistências à vista, desde a faixa da miséria até a fina flor da elite empresarial, desde o interior mais escondidinho do nordeste até o mais exuberante edifício da Avenida Paulista.

Os petistas, mesmo que não tenham participado ativamente da escolha da candidata, a aceitaram com naturalidade, entenderam logo que têm nas mãos um trunfo espetacular, uma possibilidade de ouro como nunca antes aconteceu no Brasil. Por isso mesmo, a militância não precisa ficar tensa, nem de longe perder o sono. Pode confiar, com tranquilidade, que a eleição está garantida, o Brasil continuará no mesmo rumo, e o que foi consolidado até hoje será fielmente preservado, não haverá nenhum retrocesso.

Ninguém precisa ser um Bolivar Lamounier para analisar os fatos que sustentam essa convicção. Não se trata de prepotência ou bravata dos grupos dominantes. O que manda mesmo é a voz do povo e a força de todos aqueles que contribuem para a construção da candidatura e que influenciam decisivamente no resultado das eleições. Basta lembrar que a base parlamentar do atual governo é muito ampla, consistente e diversificada, vai desde o PT e o PCdoB até o PTB do Roberto Jefferson e o PP do Paulo Maluf, vai desde gente muito decente até os mais corruptos e atrasados caciques do coronelismo.

As pesquisas indicam – sem qualquer vacilação – que a força do presidente Lula no norte-nordeste brasileiro é imbatível, em parte porque é lá que está concentrada a massa do Bolsa-Família, que não tem condição de sobrevivência sem o programa governamental; em parte por causa das muitas obras de grande valor econômico, como a transposição do Rio São Francisco, a construção da hidrelétrica de Belo Monte e tantas outras; e em parte porque as alianças com as principais lideranças dessas regiões, como José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Geddel Vieira Lima (e tantos outros), devidamente fortalecidas, asseguram um bom desempenho no jogo eleitoral.

É preciso considerar, também, a força das classes trabalhadoras, de todos aqueles que produzem a riqueza e que participam do desenvolvimento sem maiores conflitos com o sistema, na medida em que integram a base de apoio do governo. Salvo algum engano, as principais centrais sindicais devem apoiar a candidata do presidente, mesmo que não venha a ser aprovada a redução da jornada de trabalho para 40 horas e nem a mudança no cálculo das aposentadorias. Espera-se inclusive que as centrais ajudem a campanha oficial sem tumultuar a governabilidade e sem exigências que possam causar algum embaraço eleitoral junto aos setores empresariais. Proposta estatizante, nem pensar.

Por falar no empresariado, é bom que se diga: ninguém deve se preocupar. A turma do capital está feliz da vida, já que, apesar da crise econômica mundial, o governo brasileiro tem sido extremamente generoso, deu para eles o apoio máximo do Estado, dinheiro farto do BNDES (com juro de pai para filho), isenções de impostos, reescalonamento de dívida, enfim, todo aquele gás que tem girado a roda do capitalismo, contribuído para aumentar o lucro, acumular riquezas, concentrar patrimônios e poderes. Assim, a candidata do presidente pode ficar mais do que sossegada. Não haverá nenhuma debandada empresarial, muito menos da Vale, Gerdau, Votorantim, Camargo Correa, Odebrecht, Andrade Gutierrez e tantas outras. Entre os banqueiros, igualmente, todos estarão unidos nessa mesma caminhada rumo a novos recordes de lucros. A campanha pode contar, desde já, com a força do Bradesco, Itaú, Santander etc.

Para encurtar a história, é bom todo mundo saber que a candidata do presidente conta com o apoio sincero das grandes corporações estrangeiras, transnacionais e de todos os investidores do mundo que apostam no desenvolvimento do Brasil. Eles não têm do que reclamar, pois aprenderam a confiar na gestão de Henrique Meirelles no Banco Central e nas relações com os grupos políticos e econômicos que atuam no atual governo. Para eles, não se deve mexer em time que está vencendo, especialmente quando protege tão bem os investidores. Não é surpresa também que até mesmo o governo dos Estados Unidos, normalmente tão hostil com os povos da América Latina, esteja torcendo pela candidata do “cara” – afinal, desde os tempos do “companheiro” Bush que o Brasil tem sido um excelente parceiro do irmão do norte. A convivência fraternal com Tio Sam vai continuar, inclusive deve ser essa a torcida do povo do Haiti.

Em relação aos movimentos sociais mais irriquietos, aqueles que ainda não se aperceberam das virtudes da conciliação geral e irrestrita e da importância histórica da colaboração com as classes dominantes, esses ficam mesmo por conta do sufoco econômico, das CPIs dos ruralistas, da ação implacável do Judiciário e da repressão das polícias militares estaduais. Dificilmente tais ações – por mais autoritárias e antidemocráticas que sejam – serão imputadas ao arco de alianças da candidatura oficial. Afinal, o estabelecimento da ordem é algo que agrada sobremaneira às classes médias esclarecidas pela TV Globo e pela revista Veja.

A grande mídia empresarial liberal-burguesa, que diuturnamente tem fustigado os movimentos sociais, as lutas dos trabalhadores, os pobres, as propostas transformadoras da sociedade e até mesmo aspectos pontuais do atual governo (como o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos), não deve causar maiores problemas à candidata do presidente. Primeiro porque perdeu credibilidade e em eleições anteriores o povo não a levou em consideração; segundo porque não tem interesse em bater no modelo econômico que favorece as classes que representa; e terceiro porque ficou restrita às críticas pessoais, moralistas e preconceituosas, algo que não cola no povão-eleitor. Além disso, vale registrar que a mídia regional está toda nas mãos do coronelismo eletrônico – em grande parte aliado da campanha comandada desde o Palácio do Planalto.

Considerados, enfim, os diferentes argumentos, não há porque duvidar de que a eleição será mesmo um passeio para a candidatura oficial. Antes que se esqueça, é preciso colocar algumas linhas sobre a oposição: a da direita, constituída basicamente pelo DEM e PSDB, é algo ridículo, sem expressão popular, perdeu o eixo com a derrocada do fundamentalismo neoliberal, está mais esclerosada que o seu maior guru – o ex-presidente FHC. Perdeu longe a disputa da melhor gestão do capitalismo. Não vai ameaçar eleitoralmente ninguém, mesmo porque tem em suas fileiras alguns lulistas de carteirinha, entre eles o governador mineiro Aécio Neves. As demais filiais da direita nasceram sem bandeiras e tendem a ficar sem eleitores. Nem mesmo a poderosa FIESP quer saber da tucanalhada.

Dividida, a esquerda vive em esquizofrenia. Uma parte acha que vale a pena apostar na candidata do presidente, insistir nessa composição esdrúxula que tem fortalecido o capital e as oligarquias, assegurar espaço institucional sem maiores transformações. No curto prazo tal opção representa a sobrevivência política de cada um, mas no longo prazo pode ser apenas a perpetuação do modelo atual. Outra parte da esquerda ainda tateia na construção de alternativas – não somente eleitoral, partidária e política, mas fundamentalmente de projeto de Nação.

Essa divisão no campo da esquerda deixa claro que não será desta vez que o povo brasileiro emplacará um presidente realmente comprometido com o programa popular, democrático e socializante. O Brasil precisa urgentemente de uma alternativa de esquerda que mobilize as classes trabalhadoras e a juventude para uma transformação profunda da sociedade, centrada na superação do capitalismo. Mas como essa proposta não tem acúmulo suficiente para mudar o atual processo eleitoral, os apoiadores da ministra podem ficar bem mais tranquilos, porque a esquerda que está fora do bloco governamental não representa a menor ameaça à candidatura dela. De jeito nenhum. A eleição da ministra Dilma Rousseff está mais do que garantida. São favas contadas. O Brasil continuará no mesmo rumo. A não ser que, num passe mágico, as pessoas acordem da letargia.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista, editor da revista Caros Amigos, colunista dos jornais Brasil de Fato, Correio do Brasil e professor da PUC-SP.