O off no jornalismo

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Publicado segunda-feira, 7 de abril de 2003 as 20:53, por: cdb

A entrega da fita gravada pelos jornalistas à Comissão de Ética do Senado suscita algumas reflexões sobre o exercício do jornalismo. Alguns parlamentares comentavam ontem – e em defesa do que se convencionou denominar “classe política” – a decisão do semanário (e não pessoalmente do repórter) de transformar o informante Antonio Carlos Magalhães no assunto da semana. Enfim, a pergunta de um deles é de singelíssima lógica: se o fato de Antonio Carlos Magalhães mandar gravar a conversa alheia constitui crime, não constituiria crime o repórter gravar o diálogo com o Senador da Bahia? Se Geddel pode processar Antonio Carlos, Antonio Carlos não poderia processar a revista? Afinal, o ato do jornalista foi por ele confessado – e Antonio Carlos, mesmo no texto gravado, nega a responsabilidade pelas escutas em pauta.

As relações entre políticos e jornalistas se tornaram muito peculiares a partir do regime militar, em que, diante da censura e da repressão, estabeleceu-se um acordo tácito, pelo qual a expressão inglesa off the record passou a integrar o léxico dos jornalistas políticos. A confiança entre alguns jornalistas e as suas fontes, que sempre existiu aqui e alhures (até hoje, 30 anos depois, o jornalista Bob Woodwards mantém em segredo o nome de seu informante no caso Watergate) passou a ser uma regra quase absoluta. Um dia, jovem e bisonha repórter, que não conhecia Tancredo Neves, procurou o então deputado e lhe pediu “uma entrevista em off”. Tancredo, de forma cortês, mas séria, disse-lhe que não falava em “off”, mas para ser publicado. Ditou algumas frases fortíssimas contra o regime militar e concluiu: “tudo o que eu disse, você pode publicar, se você e seu patrão tiverem coragem para isso”.

Fernando Henrique Cardoso disse certa vez, a um conhecido ministro do governo de Portugal, que seguia sempre o conselho de Antonio Carlos, o de jamais dar informações ao jornalista que lhe pedisse dinheiro e nunca dar dinheiro ao jornalista que lhe pedisse informações. Como se vê, é esse o juízo que o paulista e o baiano fazem do jornalismo brasileiro. Ambos fariam um bom serviço à nação se divulgassem os nomes dos que lhes pediram dinheiro e documentassem a extorsão – se é que eles existem.

Mais ainda, deveriam esclarecer se acham que há jornalistas que pedem informações suscetíveis de receber dinheiro. Feitas estas observações, o episódio não deixará de trazer conseqüências ao exercício do trabalho dos jornalistas. Os políticos, de modo geral, serão mais cautelosos ao passar aos repórteres as informações de que dispõem. Alguns já estão encomendando, nos Estados Unidos, aparelhos miniaturados, que detectam quando um gravador está em funcionamento e acionam um discreto alarme. Pelo menos dois deles confidenciaram ao colunista essa providência.

A defesa de Antonio Carlos Magalhães no Senado irá partir de um bom argumento de lógica jurídica. Antonio Carlos poderá ser julgado e eventualmente condenado pela Justiça por ter mandado grampear seus adversários e sua ex-namorada, mas não poderá responder por esse ilícito diante da Comissão de Ética. Ele não estava no exercício do mandato parlamentar quando os fatos se deram – e a Comissão de Ética é, como indica a lógica, de “ética parlamentar”. Se, no entanto, ele vier a ser condenado pela justiça comum, aí sim estará certificada a sua incompatibilidade com o exercício do mandato, e poderá ser cassado.

De qualquer forma, como nos encontramos em um tempo histórico em que tudo pode ocorrer, houve o episódio, e as relações de confiança entre as fontes e os jornalistas sofreram sério golpe. Não revelar as suas fontes é um direito assegurado aos jornalistas, da mesma forma que os advogados estão protegidos pelo segredo profissional. O depoimento feito ao Senado pelos jornalistas é perigoso precedente, por mais honrado e honesto tenha sido o repórter.

Não se trata de uma preocupação de ética mais profunda, mas de técnica jornalística. Apurar qualquer fato ficará agora mais di