O Monroe e o Garrincha

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado domingo, 3 de fevereiro de 2008 as 16:14, por: cdb

Em agosto de 1823, o ministro de relações exteriores da Inglaterra, George Canning, propôs ao embaixador (norte-)americano em Londres, Richard Rush, uma declaração conjunta, contra qualquer “intervenção externa”, na América Latina. O presidente James Monroe, apoiado no seu secretário de Estado, John Quincy Adams, declinou o convite inglês. Mas três meses depois, o próprio Monroe propôs ao Congresso (norte-)Americano, uma doutrina estratégica nacional quase idêntica à da proposta inglesa. Foi assim que nasceu a “Doutrina Monroe”, no dia 2 de dezembro de 1823. Como era de se esperar, os europeus consideraram a proposta de Monroe impertinente e sem importância, partindo de um estado que ainda era irrelevante no contexto internacional. E tinham razão: basta registrar que os Estados Unidos só reconheceram as primeiras independências latino-americanas, depois de receber o aval da Inglaterra, França e Rússia. E mesmo depois do discurso de Monroe, se recusaram a atender o pedido de intervenção dos governos independentes da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México.

Por isto, muito cedo, os europeus e os próprios latino-americanos compreenderam que a Doutrina Monroe havia sido concebida, e seria sustentada durante quase todo o século XIX, pela força da Marinha e dos capitais ingleses. E só passou de fato para as mãos norte-americanas, no início do século XX. Até lá, a América Latina foi uma espécie de “protetorado” inglês, e os Estados Unidos restringiram sua ação militar ao seu território mais próximo, e mesmo assim, quando contaram com o apoio ou com a neutralidade inglesa. Pelo menos até a Guerra Hispano-Americana, em 1898, quando os Estados Unidos conquistaram Cuba e as Filipinas, logo antes do presidente republicano, Theodore Roosevelt, propor uma mudança essencial na Doutrina Monroe, em dezembro de 1904.

O “Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe”, ficou conhecido por sua defesa do direito de intervenção dos Estados Unidos nos estados americanos “incapazes” de manter sua ordem interna, e de cumprir com seus compromissos financeiros internacionais. Já não se tratava, portanto, de uma estratégia defesa contra inimigos externos, como se pode ver, numa carta enviada por Roosevelt ao seu secretário de estado, em maio de 1904: “Qualquer país ou povo que se comporte bem, pode contar com nossa amizade cordial. Se a nação demonstra que ela sabe agir com razoável eficiência e decência nos assuntos sociais e políticos, se ela sabe manter a ordem e paga suas dívidas, ela não precisa ter medo da interferência dos Estados Unidos. Um mau comportamento crônico, ou uma impotência que resulte no afrouxamento dos laços de civilidade social podem requerer, na América ou em qualquer outro lugar do mundo, a intervenção de alguma nação civilizada, e no caso do Hemisfério Ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe, pode forçar os Estados Unidos a exercer um poder policial internacional.” (Pratt, 1955: 417).

Entre 1900 e 1914, a nova doutrina legitimou a intervenção externa dos Estados Unidos e a criação de uma série de protetorados militares e financeiros, dos Estados Unidos, na República Dominicana, Haiti, Nicarágua, Panamá e Cuba. Na sua nova condição, estes países mantinham sua administração interna, mas não controlavam sua política externa, nem sua política econômica. E os Estados Unidos mantinham o direito de “reentrada” em caso de desordens sociais ou políticas. Foi neste momento, aliás, que os Estados Unidos assumiram , pela primeira vez, o papel de polícia internacional, transformando o Caribe num “mar interior”.

Alguns anos depois, em 1914, no início da administração de Woodrow Wilson, o novo presidente democrata agregou um novo item à política latino-americana dos Estados Unidos, com uma simples frase de efeito, dita para um interlocutor inglês: “Eu vou ensinar estas republicas sul-americanas a eleger homens bons” (idem, p:423). Com este objetivo, Woodrow Wilson completou o desenho da estratégia