O monólogo, um sacrifício, a recompensa – a burguesia e seu Natal

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Publicado terça-feira, 7 de janeiro de 2003 as 20:00, por: cdb

Eu estava na mesa de mármore, esfriando, enquanto os degustadores provavam o vinho, sangue de Cristo. Na verdade, suas almas pareciam tão frias quanto o mármore. Entre um gole e outro daquela fina bebida, lançavam-me um olhar desafiador, como abutres a dar o bote no inocente peru. O ambiente não inspirava um momento natalino. Mas a burguesia é assim, pálida como a morte, e vivencia, a seu modo, as datas que acham ser comemorativas. Ouvia os murmuros do rapaz no ouvido da irmã. Não passaria o Natal deste ano sem beijar a boca carnosa de Babi, que, creio, não estava entre eles.

Bem, já devia ser meia-noite quando sentaram-se à mesa. Não estava frio, gelei. Só de pensar que seria fatiado com voracidade e empurrado para aqueles corpos de alma mórbida, pressenti o pior: vou padecer nestes estômagos!

Quando eu estava compenetrado nas hipóteses para meu fim, senti a lâmina passar levemente por meu peito suculento e arrastar minha parte de pele macia para um prato. Pronto, estava dado o primeiro golpe, ao som de “feliz Natal” por todos os lados. Daí por diante, era só aguardar os últimos momentos. Novamente cortaram meu peito, agora a fundo, e senti na carne a desvantagem do Natal. Depois, arrancaram-me a coxa bruscamente, às risadas, como quem arranca do chão um carvalho. Por fim, não sentia mais nada.

Quando dei por mim, estava dentro de um daqueles estômagos, gente insaciável. Sentia o coração bater freneticamente e o sangue corria mais que o normal. Pressenti ser ansiedade. Logo, comecei a conhecer um pouco mais do ser humano. Eu estava trancafiado naquela barriga e por alguns momentos fui jogado de um lado para o outro. Que morte mais besta! Queria ter um fim menos trágico e ser corroído de vez pelo ácido. Num instante, o corpo que se movimentava ficou inerte e percebi o aumento da temperatura em quatro graus. A barriga foi comprimida. Fiquei apertado, imaginando o que, finalmente, me aconteceria. Foi quando uma saliva doce desceu ao meu encontro, meu presente de Natal.
Era Babi.