O melhor amigo do homem

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Publicado segunda-feira, 13 de janeiro de 2003 as 21:29, por: cdb

Dizem que o cão é o melhor amigo do homem. Na minha opinião é um amigo, mas não o melhor. Ele, o cão, é tão irracional quanto os outros animais – apesar de existirem humanos irracionais. A diferença do cão é que ele traz o jornal, os chinelos, late na presença de estranhos e morde quando você mandar.

Certa vez eu comprei um cágado de um caminhoneiro nordestino. Ele sugeriu-me o nome: Severino, em homenagem a um saudoso companheiro de estrada. Tudo bem, aceitei. Minha amizade com o pequeno Severino era muito forte. Foi meu primeiro bicho de estimação, por pouco tempo.

Deu-se que, ocupado com meus infinitos afazeres, esqueci-me do Severino, do seu tamanho insignificante, e deixei-o sem comer durante três dias e duas noites, debaixo de sol e chuva. Quando dele me lembrei, deparei-me com o cadáver num canto da laje. Se ele me considerava seu melhor amigo, fui, do contrário, seu cruel traidor.

Decidi então ter um animal que me chamasse a atenção, pelo tamanho, e adotei um dog alemão: uma fêmea chamada Pântala. Ela também se foi, mas na época, talvez sabedora de minha amnésia quanto ao Severino, fazia questão de vir me receber no portão quando eu chegava de viagem.
Hoje, com essa globalização e o avanço da tecnologia, o cão está perdendo seu espaço para o computador. O micro, por sua vez, não faz xixi no poste, não late e não morde (por enquanto). Não o considero um amigo. É apenas um mal necessário.

Em Natal de outrora, dei um sanduíche para um andarilho que passava por minha porta. Olhou-me silencioso, triste, mas com gratidão. Não tinha forças de pronunciar uma palavra de agradecimento. Devorou o alimento como um bicho, acompanhado pelo olhar espantado de minha cadela. Nem ela era capaz de comer daquele modo. Lembrei-me, logo, do meu lado mau, de como o Severino – o cágado – deve ter passado uma fome violenta. Quando acabou, conseguiu pronunciar: “Você é meu melhor amigo”. E partiu.