O Homem do ano é destaque em Berlim

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Publicado quarta-feira, 12 de fevereiro de 2003 as 19:58, por: cdb

Minnie Driver não é exatamente uma estrela. Teve alguns bons papéis em filmes interessantes, mas, no geral, é uma atriz de difícil classificação. Não se enquadra nos modelos tradicionais de type-casting de Hollywood. Minnie está aqui mostrando, fora de concurso, Owning Mahowney, que também é interpretado por Philip Seymour Hoffman, um dos atores de The 25th Hour, de Spike Lee. Este, participa da competição.

Minnie chegou para uma entrevista na terça-feira, quando foram feitas as indicações para o Oscar, dizendo-se ´chocada´. Todo mundo achou que ela ia reclamar da exclusão de Meryl Streep da categoria de melhor atriz ou de Richard Gere na de melhor ator. Minnie não sabia que havia jornalistas brasileiros no grupo, mas foi logo declarando-se escandalizada por causa de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. “O que eles pensam?” Eles, os votantes da academia, perguntou. Minnie acha City of God o filme mais forte que viu no ano passado e não apenas entre os estrangeiros no mercado dos EUA.

Ainda é cedo para pensar no que Minnie achará de O Homem do Ano. O filme que José Henrique Fonseca, o filho de Rubem, adaptou do romance “O Matador”, de Patrícia Melo – com roteiro de seu pai -, passou hoje no Panorama, uma importante mostra aqui do Festival de Berlim. O Homem do Ano segue um pouco a vertente da violência de Cidade de Deus, mas o diretor não está preocupado com possíveis comparações. “Nem gosto muito de Femme Fatale, mas o Brian De Palma, quando lhe disseram que o filme era muito violento, observou que a violência é uma coisa para o cinema. Ela fornece um material muito rico para discussão e também para armação dos conflitos que vemos nos filmes.” Ele acha que o mundo hoje é violento, São Paulo e Rio são cidades violentas e, assim, se o cinema quer ter o pé na realidade, não há como nem por que fugir do assunto. Ele tem de ser encarado, enquadrado, discutido.

Murilo Benício interpreta o protagonista. Chama-se Máiquel. Logo no começo, uma aposta muda a vida dele. Máiquel pinta o cabelo de loiro porque perdeu uma aposta para o primo e, por causa disso, termina matando seu primeiro homem. O morto é odiado por todo mundo, Máiquel vira herói e termina assumindo o ofício de matador. O filme conta também com Jorge Dória, que tem falas maravilhosas pelo que revelam do cinismo, misto de racismo e cafajestagem da classe dirigente nacional. O personagem de Dória cita estatísticas como “80% da população são favoráveis à pena de morte”, para induzir Máiquel a eliminar seus desafetos e, depois, montar o negócio que o transforma no homem do ano.

O filme distancia-se do livro por um detalhe que não é insignificante. Fonseca conta que não quis fazer um filme tão violento quanto o livro. Preocupou-se em humanizar mais o personagem, que o atraiu justamente por sua natureza: Máiquel não revela suas emoções, é arrastado num turbilhão a partir de um detalhe e isso permite ao diretor sintetizar o sentido do filme num monólogo, quando o matador diz que a vida é como um rio que arrasta a gente ou como um cavalo no qual colocamos o bridão, para domá-lo. A questão da vida é essa – se vai ser, para a gente, rio ou cavalo. O Homem do Ano pode não impressionar muito, inicialmente, mas é um filme que merece revisão. Poderá crescer, inclusive.

Um policial brasileiro, outro americano, o de Spike Lee. Ele fez ´quase´ a coisa certa em The 25th Hour. É preciso atentar para esse quase. Spike Lee armou um circo em Berlim há dois anos, quando veio mostrar A Hora do Show. Denunciou o sistema eleitoral americano, disse que a eleição de George W. Bush foi fraudada e destacou seu compromisso com o pensamento de direita. No seu novo filme, Spike Lee ataca o problema do 11 de setembro de frente. Uma das cenas mais fortes se passa diante de uma janela que descortina o pátio de obras em que se transformou a terra devastada do World Trade Center. O filme tem problemas e o maior