O garoto esperto, o prefeito perplexo e o partido carente

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Publicado sexta-feira, 8 de outubro de 2004 as 11:20, por: cdb

Articulação de Garotinho em Niterói que levou Moreira Franco (PMDB) a desistir da disputa do 2º turno reaproxima o ex-governador do Rio de Janeiro do PDT, que poderia se tornar sua legenda na sucessão presidencial de 2006.

Ele já colocou a Justiça Eleitoral de joelhos uma vez, ao conquistar em 2002 o direito de registrar a candidatura da mulher a sua sucessão no governo do Rio de Janeiro, no episódio que originou a chamada Lei Rosinha. Agora, Anthony Garotinho ataca novamente, coordenando uma manobra eleitoral bem na cara do Tribunal Regional Eleitoral, que nada pode fazer. O cenário desta vez é a belíssima cidade de Niterói, onde o candidato a Prefeitura pelo PMDB, Moreira Franco, anunciou sua desistência de disputar o segundo turno das eleições contra o prefeito Godofredo Pinto, do PT, que tenta a reeleição.

Ex-prefeito de Niterói e ex-governador do Rio, político que passou pela Arena e pelo PDS antes de ancorar no PMDB, Moreira Franco tem, segundo as pesquisas, um impressionante índice de rejeição de 45% na cidade. Como ele obteve apenas 22,48% dos votos dos niteroienses em 3 de outubro, esse índice praticamente impede sua vitória contra Godofredo, que conquistou 48,7% dos votos no primeiro turno. Diante desse quadro, Garotinho promoveu uma troca de candidatos: sai Moreira, volta João Sampaio (PDT), que havia chegado em terceiro lugar no primeiro turno com 14,42% dos votos.

A primeira vista, pode parecer pouco inteligente trocar o segundo colocado pelo terceiro, mas é aí que entra em jogo o poder da taxa de rejeição a um candidato. Sampaio, ao contrário de Moreira, tem a menor de todas, com somente cerca de 10% dos eleitores dizendo que não votariam nele em hipótese alguma. Garotinho aposta que, mais do que demonstrando aprovação à administração do petista, muita gente votou em Godofredo para impedir a vitória de Moreira, praticando o voto útil. Não foi à toa, portanto, que Garotinho anunciou a imprensa o apoio do governo estadual a Sampaio apenas duas horas depois de Moreira ter anunciado sua renúncia. Nunca se viu tanta rapidez de negociação.

Com Sampaio no segundo turno, Garotinho acredita (e, cá entre nós, com razão) que suas chances de vitória aumentam consideravelmente. Aumentam porque revigoram Sampaio, que não é um político a se desprezar, uma vez que também já foi prefeito de Niterói e deixou o cargo com um índice de aprovação superior a 70%. Aumentam porque trazem de volta aos holofotes Jorge Roberto Silveira, que já foi prefeito da cidade por três vezes, além de ter sido o candidato do PDT ao governo do Estado em 2002, e tem muito poder nas urnas. Aumentam, sobretudo, porque em Niterói foi sacramentado finalmente o noivado entre o grupo político de Garotinho e o PDT, numa mistura que aponta para o futuro, mas tem capacidade de apresentar resultados eleitorais já no presente.

No início do ano, quando a governadora Rosinha Matheus começou a cortejar Leonel Brizola para convencê-lo a ser candidato na capital com o apoio do governo estadual em troca de permitir que Garotinho iniciasse o processo de volta ao PDT, Silveira imediatamente protestou. Com a morte de Brizola, parecia que as portas pedetistas se abririam com mais facilidade para os Garotinho, mas alguns líderes do partido, Silveira entre eles, continuaram resistindo. Agora, com a aliança em tono de Sampaio, e em que pesem alguns pontos de tensão como as eleições em Campos, já podemos afirmar sem medo de errar que Garotinho começou a voltar para o PDT. Pode até ser que algo ou alguém o impeça, mas que ele já começou a se movimentar nessa direção, começou.

No PMDB, as chances de Garotinho obter legenda em 2006 diminuem na mesma medida em que o partido se acomoda na base do governo Lula. É verdade que existem no PMDB oposicionistas como seu próprio presidente, Michel Temer, que defendeu Garotinho mesmo quando Rosinha ameaçou não repassar verbas para as cidades que elegessem candidatos adversários do partido. Mas mesm