O fracasso dos EUA

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Publicado terça-feira, 20 de maio de 2003 as 22:20, por: cdb

O novo projeto dos EUA para o Oriente Médio fracassará muito antes e de forma mais rotunda do que os anteriores. Valendo-se da queda do regime de Saddam Hussein, o governo Bush busca repetir o que foi feito logo depois da primeira guerra do Iraque.

Na primeira guerra, em 1991, como Arafat apoiou entusiasticamente, os EUA e Israel se valeram da derrota de Saddam Hussein e impuseram as condições dos acordos de Oslo. Este produto direto da situação comprometedora a que Arafat havia levado os palestinos, significou uma bomba de tempo, dado que os principais problemas – fronteiras do Estado palestino, retorno dos refugiados, fim dos assentamentos, situação de Jerusalém – ficaram adiados, sem definição. O governo de Israel fez concessões secundárias, permitindo a existência de uma Autoridade palestina sobre territórios sem conexão entre si, mantendo-se não apenas os assentamentos, como o poder de Israel de cortar a comunicação entre eles militarmente.

A previsão de Edward Said de que esses acordos eram um retrocesso e não um passo adiante, se revelou dramaticamente verdadeira, com a irrupção da nova intifada, ao invés da pacificação da região. Desta vez, a proposta dos EUA repete monotonamente o mesmo procedimento. Conseguiu desqualificar a Arafat como interlocutor e impor a criação do cargo de primeiro-ministro da Autoridade palestina e conseguiu a nomeação de um moderado para retomar as negociações.

No entanto, os mesmos vícios se repetem: os temas das fronteiras do Estado palestino, do estatuto de Jerusalém, dos refugiados e dos assentamentos continuam adiados, como se estes últimos não fossem um elemento chave da resolução do problema, sem o qual nenhum avanço será possível.

Não são os novos atentados o que bombardeiam os novos acordos, mas essas debilidades essenciais, que fazem de novo parecer como se estivesse fazendo concessões aos palestinos, quando se trata na realidade de uma falsa solução, que apenas dá a impressão de que o governo Bush se preocupa com o problema palestino e que consegue trazer de volta ao governo Sharon para a mesa de negociações. Os jogos de cena desta vez funcionarão muito menos do que os anos que os acordos de Oslo tardaram para revelar seu fracasso.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo) e “Contraversões” (com Frei Betto, Editora Boitempo).