O flagelo do desemprego

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Publicado quinta-feira, 6 de novembro de 2003 as 22:16, por: cdb

“Sem o seu trabalho
o homem não tem honra
E sem a sua honra
Se mata, se morre”
Gonzaguinha

A Folha de S.Paulo divulgou no último domingo, dia 2 de novembro, a pesquisa Datafolha realizada no final de outubro em 130 municípios de todo o país. A pesquisa reforçou uma das principais conclusões a que haviam chegado diversos levantamentos anteriores: o desemprego é, de longe, a maior preocupação dos brasileiros.

O desemprego aparece como o principal problema do país para 46% dos entrevistados, superando por larga margem a fome (12%), a violência (10%) e a saúde (10%). A avaliação do governo Lula, que ainda é boa em termos gerais, acusa forte deterioração nesse quesito. Para 25% dos entrevistados, o desemprego é a área em que o governo está se saindo pior.

Antes da posse de Lula, o otimismo era enorme. Nada menos que 71% dos entrevistados pelo Datafolha acreditavam que o governo seria bom ou ótimo no combate ao desemprego. Na nova pesquisa, apenas 14% mantêm essa avaliação. O governo é considerado ruim ou péssimo no combate ao desemprego por 54% dos consultados, em comparação com 50% em agosto e 43% março. Ironicamente, 40% avaliam que os mais prejudicados pelo governo Lula são os trabalhadores.

Não há Duda Mendonça que possa resolver esse problema. Essa e outras pesquisas de opinião estão refletindo uma realidade que nenhum esforço de marketing conseguirá maquiar. A questão do desemprego, pelo menos nos centros urbanos, é provavelmente mais grave do que vem sendo divulgado pelos meios de comunicação.

Peço a paciência do leitor para mencionar alguns dados que nem sempre recebem o devido destaque.

O desemprego total (que inclui o desemprego aberto, o desemprego por trabalho precário e o desemprego por desalento) aumentou consideravelmente no passado recente e alcança hoje níveis alarmantes nas regiões metropolitanas.

Em Belo Horizonte, a taxa de desemprego total subiu de 18,1% em agosto de 2002 para 21% em agosto de 2003; em Porto Alegre, de 15,4% para 17,8% no mesmo período; em Recife, de 20% para 23,6%; em Salvador, de 27,1% para 28,8%; e no Distrito Federal, de 19,9% para 23,3% (dado de julho de 2003).

Na principal região metropolitana do país, São Paulo, a taxa de desemprego total passou de 18,9% em setembro de 2002 para 20,6% em setembro de 2003. O resultado de setembro se iguala aos observados em abril e maio deste ano e corresponde ao nível mais elevado desde 1985.

Ao reduzir o poder de barganha dos trabalhadores, o desemprego elevado e crescente contribuiu para deprimir os salários e demais rendas do trabalho. Em agosto de 2003, o rendimento médio real na região metropolitana de São Paulo diminuiu 6,6% em relação ao mesmo mês do ano passado, registrando o valor mais baixo para o mês de agosto desde 1985.

A pesquisa mensal de emprego realizada pelo IBGE, que mede apenas o desemprego aberto nas seis principais regiões metropolitanas, também registra deterioração acentuada. A taxa de desemprego aberto aumentou de 11,5% em setembro de 2002 para 12,9% em setembro de 2003. O crescimento foi significativo em quatro das seis regiões metropolitanas; no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, a taxa de desemprego permaneceu estável. No mesmo período, o rendimento real caiu nada menos que 14,6%, em média, tendo acusado quedas consideráveis em todas as seis regiões metropolitanas.

Em resumo, o mercado de trabalho está um verdadeiro desastre. A quem cabe a responsabilidade pelo que está ocorrendo?

São muitos os fatores a considerar. Mas não há como ignorar a contribuição da política econômica do atual governo.

Nas condições em que o governo começou, em meio a uma crise financeira grave, era indispensável combater a inflação e implementar políticas rigorosas nas áreas monetária e fiscal.
No entanto, a Fazenda e o Banco Central erraram na dose. Numa economia que já estava fragilizada e não apresentava