O espelho quebrado de Narciso: As novas neuroses e as compulsões afetivo-sexuais no século XXI

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Publicado terça-feira, 22 de janeiro de 2013 as 10:50, por: cdb

Estava andando em um shopping aqui no Rio (na Barra da Tijuca, para ser mais exato) nestes últimos dias e consolidando uma percepção que tem sido cada vez mais aguda, para mim, nos últimos dez anos: a de como as pessoas estão ficando cada vez mais parecidas e parecem todas terem entrado na mesma forma.

Narciso
As pessoas estão ficando cada vez mais parecidas e parecem todas terem entrado na mesma forma

É uma verdadeira multidão de “quase residentes” permanentes em academias de ginástica, de barrigas “tanquinho”, de seios e nádegas que se transformaram em verdadeiras esculturas ambulantes de silicone e, com pouquíssimas exceções, praticamente uma multidão de louras (se não louras, com cabelos submetidos às experimentações químicas para clarear e deixá-los, pelo menos, com um certo brilho dourado). É, no mínimo, curioso para um país como o nosso, onde a morenice e a beleza natural sempre foram cantados em versos, prosa e canções como um de nossos grandes diferenciais, em relação a outros países mais louros e mais monocromáticos.

E não é que o Rio de Janeiro, um dos principais redutos destas qualidades tipicamente brasileiras, está se tornando quase uma nova Suécia (pasmem!!) de tal e tantos que são os espécimes louros (ou alourados) que se encontram a circular em diversas partes desta mui heróica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Mais notadamente em alguns redutos específicos que parecem ser o habitat natural desta grande colônia “nórdica”, de frequentadores (quase moradores) de academias e de consultórios de estética diversos (dos mais simples procedimentos aos cirurgiões plásticos, nossos artistas pós-modernos do silicone).

Mas, estas constatações, na verdade, estão diretamente ligadas a uma série de reflexões que venho desenvolvendo ao longo dos últimos anos sobre os modelos de beleza, de comportamento, de afetividade e de relações sociais aos quais estamos submetidos nesta sociedade e cultura pós-moderna, onde se constata cada vez mais o aparecimento de indivíduos com estruturas psíquicas e identidades com alto nível de fragmentação, além de neuroses obsessivas e comportamentos compulsivos em um nível que poderia ser considerado, com certeza, preocupante.

O resultado disso é uma sociedade desde, pelo menos, os anos 90, cada vez mais “erotizada”, mais conectada (é a época da explosão do uso da Internet, em escala comercial e pelas pessoas físicas, não mais apenas por governos, universidades e instituições de pesquisa) e cada vez mais ansiosa e estressada, onde estes modelos se impõem com força e de forma irreversível, criando um padrão de comportamento e de estética com pessoas que precisam ser lindas (de preferência, louras), magras, malhadas e altamente sensuais para poderem se enquadrar dentro da imagem dos “vencedores” sociais cultuada pela nossa sociedade.

Enquadrar e se encaixar, ser desejado e amado. Objetivos que vêm sendo cultuados de forma praticamente compulsiva, criando uma pressão social crescente, onde as pessoas precisam corresponder a estes atributos para que possam se sentir aceitas, amadas, desejadas e acolhidas, já que vivemos em uma sociedade que só valoriza os “vencedores” e praticamente condena ao exílio social aqueles que não se enquadram nestes padrões, os chamados “perdedores”.fotoA este panorama, por si só, bastante para desencadear a ansiedade e o aparecimento de neuroses diversas nesta sociedade global do século 21, podemos acrescentar um quadro de uma sociedade onde as pessoas estão altamente conectadas com tudo e todos à sua volta, mas nunca tivemos um contingente tão grande de solitários e de laços afetivos tão fluidos e instáveis, a era do chamado “amor líquido”. Uma era onde é mais fácil deletar, do que tentar resolver obstáculos e conflitos dentro dos relacionamentos, onde todos estão ligados a todo mundo, mas poucos conseguem estabelecer relações estáveis e saudáveis, seja do ponto-de-vista afetivo ou sexual.

Um século onde o modelo disseminado pela mídia cria famílias cada vez mais disfuncionais, onde os filhos têm mais contatos com suas babás do que com suas mães, onde é mais fácil ver crianças se comunicando umas com as outras através de seus celulares e tablets, do que pessoalmente (e isso ao redor de uma mesma mesa de almoço, como se pode ver em vários restaurantes de shoppings do Rio, nos finais de semana). Ou seja, uma sociedade onde o abandono e o abuso emocional se tornam um fato recorrente e preocupante, já que o resultado disso são pessoas, com um profundo vazio emocional, com uma carência enorme de amor, aceitação e acolhimento, além da ocorrência crescente de quadros de neurose compulsiva e de comportamentos de dependência afetiva e sexual.

Um indicador concreto desse fenômeno tem sido o crescimento dos grupos de auto-ajuda como o DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) e o MADA (Mulheres que Amam Demais) e do número de pessoas que passam a frequentar estes grupos, em busca de ajuda para conseguir lidar com seus quadros de adicção afetivo-sexual, capazes de destruir suas vidas, famílias e relações sociais e profissionais.

E de filmes como o Shame, onde o personagem principal vivido por Michael Fassbender apresenta um quadro de compulsão sexual aguda e uma total incapacidade de estabelecer relações afetivas estáveis, sem contar programas e séries de TV como Super Nanny e Sessão de Terapia, em uma cultura onde o espelho de Narciso está quebrado e mostra uma imagem não só não muito bonita de ver, mas um reflexo inquietante real desta nossa sociedade, transformada em sociedade do espetáculo.

 * Marcelo Bernstein é jornalista e também atua como psicanalista e terapeuta sexual. Ele pode ser contactado através do e-mail marcelobernstein@hotmail.com e dos telefones (21) 2290-9324/2260-7976 ou (21)7228-4649