“O dia da Pátria”

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Publicado quarta-feira, 3 de setembro de 2003 as 10:16, por: cdb

Estamos na semana da Pátria e como de costume, nos preparamos para ver os desfiles militares. Num lugar privilegiado da cidade, lá estarão os militares exibindo suas fardas e armas, como se tudo aquilo – e somente aquilo – fosse a nossa Pátria. Os desfiles de 7 de setembro exibem a Pátria de fardas e armas para a guerra. É como se não acreditássemos na possibilidade de os povos viverem em paz. Queremos a paz, lutamos por ela incansavelmente e, no entanto, nos preparamos para a guerra. Isso não parece uma grande contradição? De fato, é contraditório, mas não deixa de ser um pouco prudente que cada país tenha uma defesa armada, mas que fique guardada e usada somente em extrema necessidade. O problema é que, no dia da Pátria, se exibe o que tem de pior no país, mostram para o povo aquilo que é uma espécie de “mal necessário”.

Não seria mais original se os desfiles de 7 de setembro destacassem o que há de mais belo em nossa terra? Em vez de homens uniformizados, poderíamos ver pessoas de várias etnias, de culturas e cores diferentes, mostrando ao mundo a possibilidade de se viver em paz, amor e união com as diversidades, nossa “unimultiplicidade” brasileira. Em vez de homens armados, prontos para a guerra, quem sabe ostentaríamos nosso povo trabalhador, preparado para cultivar a terra e manusear as máquinas nas fábricas. Jovens, mulheres e homens ansiosos por um emprego para ajudar a superar a miséria e a fome, e construir um pais com justiça e desenvolvimento. As crianças, vanguardas da paz, poderiam brincar nas ruas e praças, ensaiando o tempo pleno da justiça, mas sedem este lugar sagrado para um exibicionismo arcaico que, no fundo, chega a ser vergonhoso.

O pior é que a sociedade aceita tudo isso. Certamente o povo aceita os desfiles militares como símbolos da Pátria, porque assim aprendeu, esquecendo-se de que a Pátria, por toda a sua grandeza, só poderia ser representada em qualquer lugar do mundo pelo seu próprio povo. Somente o povo, grande e soberano, poderia representar toda a majestade de nossa Pátria. É, pois, muita mediocridade e simplismo, no dia da Pátria que amamos, exibir suas armas e seus soldados fardados. Nossa Pátria Brasil é muito mais que isso. É um povo sem medo de ser feliz, solidário, pacífico e trabalhador. Se não soubermos valorizar o povo que vive e faz este nosso Brasil ser mais belo e melhor de se viver, de nada adianta celebrar “O dia da Pátria”.

Desde de 1995, apartir da Campanha da Fraternidade da CNBB, as Igrejas e movimentos sociais e populares se unem para o “Grito dos Excluídos” que acontece no dia 7 de setembro. Normalmente sobra para esta manifestação do povo o fim último da fila. Depois de os cavalos sujarem a rua, deixam o povo desfilar mostrando seu amor pela Pátria – amor que se traduz em gritos de protesto, faixas com frases teimosas de um sonho de mudança. Este é o verdadeiro amor pela Pátria, capaz de mudar o que há de errado e vergonhoso no Brasil. É por causa deste povo que vale a pena, no feriado de 7 de setembro, sairmos de casa e ver o sol brilhar ou ver a chuva cair, mas sobre tudo, ver as pessoas, a grande beleza deste país. Vale a pena cantar nosso Hino Nacional, olhar para nossa Bandeira com veneração, quando sabemos que no coração destes símbolos há um povo e uma terra fértil de riquíssima biodiversidade – uma terra que quer se livrar do latifúndio e ser pisada, carinhosamente, pelo lavrador que dela sabe cuidar. Estas palavras é só para lembrar que a nossa Pátria amada é mais do que aquilo que parece nos desfiles militares de 7 de setembro.

Frei Pilato Pereira – Teologia ESTEF – Pilato@terra.com.br