O dia da Benedita

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Publicado quarta-feira, 2 de outubro de 2002 as 18:15, por: cdb

O 30 de setembro qualificou Benedita da Silva para o exercício do governo do Rio de Janeiro. Pode ser que todos os outros dias do ano, inclusive os próximos, façam dela a mais desqualificada dos candidatos, mas a governadora deu uma lição de compostura aos seus descompostos adversários. Conseguiu essa condição quando disse que “o que está em jogo é a democracia, isso não atinge apenas o processo eleitoral, mas a democracia”.

Veja-se o que disseram os seus adversários.

Anthony Garotinho: “O risco-Brasil é esse: o risco de um governo fraco, que não se faz respeitar. Se foi boato, ela se intimidou. Se foi ordem do tráfico, ela se acovardou. Coincidentemente, o arrastão de Ipanema, da Tijuca, todos acontecem com o mesmo personagem. A quem interessa o crime?”

César Maia: “É uma descompensação de quem mostrou, mais uma vez, que não tem equilíbrio e capacidade para governar.”

O Rio de Janeiro estava paralisado pelo tráfico e seu prefeito e um candidato a presidente da República, cuja mulher disputa o governo do Estado, nada tinham a dizer nem a fazer, além do tititi da responsabilização inútil. Poderiam dizer o que quisessem de Benedita, desde que deixassem as acusações para o dia seguinte. Tornaram-se personagens medíocres de um triste dia da história do Rio. Poderiam ter feito qualquer uma das seguintes coisas:

1) Ir ao Palácio Guanabara, colocando-se à disposição da governadora para colaborar no restabelecimento da ordem.

2) Atender a freguesia numa padaria ou botequim que estivesse aberto.

3) Anthony e Rosinha Garotinho poderiam ter ido à prefeitura para pedir a Cesar Maia que lhes desse licença para manter aberta uma escola. Poderiam dispensar os professores e ficar nas salas de aula, ensinando geografia aos garotos.

Poderiam ter feito essas e outras coisas, mostrando que têm algum interesse pelo dia-a-dia dos contribuintes, em vez de ficarem em suas salas xingando-se uns aos outros.

Pode-se argumentar que isso é demagogia. Não é. É o exercício do patrimônio moral que a função pública dá às autoridades. Foi essa força que moveu o prefeito Rudolph Giuliani no dia 11 de setembro. Foi ela que levou Carlos Lacerda para o rescaldo de uma rebelião de presos na Frei Caneca. Essa disposição de exercer a autoridade levou o general Costa e Silva a encerrar uma rebelião de bombeiros paulistas com meia dúzia de gritos. Foi ao quartel revoltado levando apenas o motorista.

Como Cesar Maia é chegado num Napoleão, pode-se dizer que esteve na batalha das Pirâmides, reclamando da poeira. Faltou a Cesar Maia, no exercício da função de prefeito, bem como à família Garotinho na condição de oligarquia emergente, a percepção de que poderiam ser úteis aos cariocas. Para quê? Mesmo que fosse para dar carona a uma criança que voltava para casa.

O que está em jogo é a democracia, porque os arrastões não podem se tornar uma tática eleitoral. Nem na mão de Cesar Maia, como querem fazer parecer seus adversários, nem na mão dos traficantes. Muito menos na mão dos tucanos. Além disso, passados 10 anos do famoso arrastão da Praia de Ipanema, vê-se que a conflagração do Rio (ou sua instrumentalização) mudou de patamar.

A conduta de Cesar Maia e de Garotinho no 30 de setembro trouxe uma triste constatação. Ambos pensaram que podiam tirar proveito da catatonia do Rio. Os traficantes também.

*Elio Gaspari é colunista do jornal O Globo.