O desafio do conhecimento made in Brazil

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Publicado quinta-feira, 5 de abril de 2012 as 11:30, por: cdb

O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), é uma das vozes que não se conformou com o corte de 22% no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação este ano. Segundo ele, 70% dos recursos da pasta se referem a salários, impostos e outros custos fixos, o que estaria comprometendo diversos projetos, inclusive os que já estariam em andamento. Em artigo, chamou a atenção às perdas que a interrupção de recursos causaria não só em termos de tempo, como, também, de investimentos já realizados.

Cerqueira Cesar alertou para uma possível condenação do Brasil ao subdesenvolvimento, caso se mantivesse indefinidamente no caminho da produção de itens de baixo valor agregado. “Isso acontecerá inexoravelmente se o Brasil continuar sendo impedido de realizar pesquisas”, declarou.

O cientista social Mariano Laplane, presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), uma organização social ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e professor da mesma UNICAMP, defende a preocupação do físico. “Ela é muito pertinente”, garante.

Projetos de longa maturação

Laplane lembra que o investimento que se faz em ciência e tecnologia tem como característica uma maturação muito longa. “Quando há cortes muito significativos no orçamento de ciência e tecnologia de maneira súbita, ocorre uma grande desorganização de todas as atividades. Projetos são interrompidos”. Os cortes são ainda mais preocupantes ante os atuais desafios da economia brasileira.

Laplane lembra que sistema público de tecnologia, ciência e inovação (CT&I) do Brasil, ao contrário do que se propaga, é um dos mais avançados no mundo. “Em particular, há grandes avanços na área de geração de conhecimento científico e na formação de recursos humanos – nossos pesquisadores são altamente qualificados”, avalia. Sua afirmação pode ser comprovada a partir do número de artigos publicados anualmente por nossos pesquisadores. “Nós já ultrapassamos neste campo os países europeus de porte médio, como Escandinávia e Espanha”.

Para Laplane a grande dificuldade da área é traduzir o conhecimento científico, a capacidade de formação e de fazer ciência no país em avanço tecnológico e inovação. É aqui que reside outra questão, crítica ao desenvolvimento da pesquisa nacional. Comparando o que o Estado gasta no Brasil com países como a França, Espanha, Itália em desenvolvimento científico e tecnológico, o Brasil não deixa a desejar. “Estamos gastando um volume de recursos públicos proporcional ao PIB muito próximo do que se gasta nestes países”. O que preocupa é o investimento privado na área. “Ele ainda é muito incipiente”, ressalta.

Falta o esforço da iniciativa privada

“O que precisamos é aumentar o esforço privado em investimentos em C&T e Inovação; os avanços têm que ser muito mais ambiciosos”, garante. “Se compararmos o que o setor privado nacional gasta em comparação com o setor privado destes países, aqui nós temos um hiato bastante razoável”.

O professor, no entanto, garante que isso não quer dizer que o Brasil não esteja, do ponto de vista tecnológico e produtivo, atualizado. Ao contrário. Boa parte desta produção tecnológica na área de agricultura, indústria, nos serviços, se dá com conhecimento importado, seja na forma de equipamentos novos, seja com novos insumos. “O que falta é um diálogo mais direto, mais intenso, entre a nossa ciência e a nossa tecnologia – a capacidade de gerar novos produtos, novos bens e novos serviços. A inovação é a ponte entre essas duas coisas”, comenta.

Para o cientista social, a fragilidade brasileira se dá na capacidade de inovar. “As empresas que produzem no país – nacionais ou estrangeiras – quando renovam sua linha de produtos ou atualizam seus equipamentos, normalmente, imitam e adotam a tecnologia desenvolvida no exterior”, aponta. (Leia mais)