O cerco à razão

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Publicado domingo, 14 de setembro de 2003 as 21:15, por: cdb

O ministro Cristovam Buarque tem um hábito que incomoda: o de pensar e o de revelar, com inconveniente franqueza, o que pensa. Essa é uma qualidade do bom professor: a de instigar, com sua própria opinião, a manifestação das opiniões alheias. A boa aula é um debate – e o governo é, em princípio, um debate permanente.

Mais moderado do que muitos de seus companheiros de partido, Cristovam tem, sem embargo, algumas posições firmes no que se refere à educação. A educação deve ser democrática – isto é, distribuída a todos – e de boa qualidade. A educação, em princípio, não deve ser só um bem de mercado, a ser adquirido apenas por aqueles que dispõem de recursos para comprá-la. Nisso, uma declaração sua é polêmica, mas importante para suscitar o debate: as universidades públicas devem continuar gratuitas para aqueles que podem pagar, enquanto os pobres, em razão mesmo da má educação preparatória, devem submeter-se a sacrifícios intoleráveis, a fim de custear seus estudos?

Uma coisa é absolutamente certa: o ensino universitário público é de excelência, e o privado, em muitos casos, de qualidade discutível. No ensino primário e médio, no entanto, ocorre o contrário: a rede pública vem tendo a sua qualidade erodida, na mesma medida em que os professores são desprestigiados e, mesmo, desrespeitados – mas as escolas privadas que cobram caro oferecem um ensino muito melhor. Então, ocorre o que todos sabemos: os alunos egressos da rede pública dificilmente conseguem aceder às universidades públicas. Para atender a esse universo de pessoas, sedentas, com todo o seu direito, de portar um diploma universitário que as faça competitivas no mercado de trabalho, vem prosperando, no Brasil, a indústria de “doutores”.

O governo passado fez com o ensino o que fez com tudo mais: entregou-o ao mercado. Como todos nos recordamos, uma das cínicas promessas do neoliberalismo à moda da casa era a de que o Estado devia livrar-se das empresas estatais, a fim de se dedicar às suas obrigações na saúde, na educação e na segurança. Pois bem: ele se excedeu na privatização em todos os três setores, ao desmantelá-los. O ministro Paulo Renato (que um dia será chamado a explicar-se) desregulamentou o setor, a ponto de permitir aos chamados “centros universitários” formar profissionais sem as atividades de pesquisa. As universidades, desde que foram criadas, são, mais do que qualquer outra coisa, centros de pesquisas. Os professores devem, apenas, orientar os alunos, porque aprender, no fundo, é uma tarefa solitária. Mas os alunos devem dispor – principalmente nas disciplinas técnicas – de ferramentas e instrumentos de medição, enfim, de laboratórios.

Cristovam comprou uma briga com os donos de “centros universitários” (só em Brasília são dezenas) que vendem diplomas como a rede Mcdonald´s vende hambúrgueres. São escolas mal preparadas, com professores recrutados entre profissionais liberais (alguns de reconhecida competência, é verdade, mas outros de competência a ser averiguada), que exploram o sonho de realização dos jovens da periferia, e enriquecem os empresários.
A permanência, ou não, de Cristovam no governo é um bom teste para saber exatamente para onde iremos nos próximos anos. Para saber se podemos esperar uma reversão no processo de desmantelamento do Estado, ou se devemos nos conformar com o predomínio do mercado e suas agências fajutas.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, “Mar Negro” (2002).