O caminho por Minas

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Publicado quinta-feira, 6 de março de 2003 as 20:45, por: cdb

Fernando Henrique Cardoso parece continuar perto do poder. Pelo menos nas vozes de partidários e afins que no Congresso ficaram para defender o seu legado. Seria injustiça dizer que ele não deixou sua marca no Planalto nesses oito anos de governo. FH plantou seus frutos, que agora aparecem às vistas da imprensa. Bem ou mal, os eleitores elegeram sete governadores do PSDB, com destaque para um deles – o menino dos olhos de FH. Aécio Neves torna-se, a cada dia, a referência do tucanato brasileiro, seja no contexto da função de chefe de Estado ou na crítica – ainda discreta, herança dos mineiros – dos desencontros do novo governo. É só observar os numerosos microfones à sua frente quando fala à tv, ou o corre-corre dos jornalistas com o mínimo sinal de sua presença. Assim foi na granja do Torto, após a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os governadores. E assim será até as próximas eleições.

Aécio não esconde seu interesse pelo Planalto. Ocupou um posto estratégico no governo antes de trocar Brasília por Belo Horizonte – talvez uma artimanha de FH para fortalecer o neto de Tancredo e evitar o enfraquecimento da imagem do partido na iminente vitória de Lula. Na função de presidente da Câmara, Aécio chegou a declarar que o caminho para o Planalto passava por Minas. De certa forma não está errado, mas ele pode cair no equívoco de, na medida em que conquistar seu espaço na mídia, cometer o erro de Itamar. Ou seja, pensar que o Estado não deve à nação ou não se subordina à legislação federal. O ex-governador, de passagem para Roma, certamente leva na mala a rivalidade com o ex-aliado Fernando Henrique e os desacertos entre os dois na questão da quase-moratória de Minas, que teve alarde no exterior e mexeu com o mercado brasileiro.

Mas Aécio demonstra saber onde pisa, e como o faz. O caminho por Minas, o atalho político por ele escolhido, foi a melhor alternativa do ex-deputado no intuito de almejar um lugar no Alvorada. Com passos certeiros, aos poucos, o governador mineiro tem mostrado a que veio. Sabe que um Estado bem conduzido e com saúde financeira, além de um toque de marketing, evidentemente, o fará nome fácil ao Planalto num futuro consenso das bases do PSDB.

Por enquanto, faz o jogo do presidente ao concordar com reformas e se esquivar do termo oposição nas conversas políticas, sem contudo ofender as vaidades dos tucanos na questão partidária. Consegue ser, ao mesmo tempo, a onça e o caçador. E por isso mesmo, já pode ser considerado uma pedra no caminho das ambições políticas de Lula. O tom das críticas será afinado com o desenrolar da história petista frente à máquina administrativa. Está nas mãos de Lula – e disso ele não pode reclamar – o seu futuro, o do PT no poder e principalmente das reformas que pretende fazer. Se o presidente conquista suas vitórias, ou parte delas, neste primeiro ano, neutraliza o tucanato. Caso contrário, o caminho entre Minas e Brasília será estreitado por Aécio.